domingo, 16 de dezembro de 2012

Bípede no Janela Poética

No bípede falante nada da bípede, mas, no Diversos Afins, em uma janela poética, uma Helena à vista.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Antes do fim do mundo

O fim do mundo está aí, e eu preciso acabar um livro.
Um outro livro sem retratos ...
Então,  o Bípede Falante será o Bípede Mudo até o dia 21 de dezembro de 2012.
Depois, se a Terra continuar redonda e girando, volto a falar.
Até lá, beijos a todos 
da bípede Lelena :)

domingo, 2 de dezembro de 2012

De um álbum de invisibilidades XI

Esta é ela  acordando em um apartamento de praia com livros, com documentos e sem telefone e ela descalça, descabelada e de babydoll indo até a cozinha para esquentar o leite e comer um pão com manteiga antes do horário de sol.
Esta é ela a cantarolar e a pensar nele.
Estas são o fogão com cara de acorda que o gás se foi,  o chuveiro com cara de acorda que o gás se foi, e ela se dizendo acorda e toma vergonha na cara.
Esta é ela descalça, descabelada e de babydoll pelo corredor do edifício sem saber onde  é mesmo que se troca o gás.
E estas são a porta do apartamento fechada e ela no lado de fora, tapando a boca com as mãos para abafar o grito.
E ela tocando a campainha de um vizinho e de outro e de outro e ela diante do nada.
Esta é ela magoando os pés rumo a um orelhão.
Esta é ela em um orelhão ligando a cobrar para deus e o mundo sabendo que à distância ninguém pode mesmo ajudar.
Esta é ela pensando nele.
E estas são um ele passando por ela e falando aí, gatinha, caiu da cama.
E um outro ele dizendo gostei da calcinha.
E estas são mulheres de biquini fingindo que ela não existe.
E esta é ela sentindo falta dele, pensando se ele ainda sabe que ela existe.
E estas são ele e uma outra ela  em uma lojinha de museu, eles preparando um jantar, eles rindo do gato fujão e eles exibindo pedras e juras de amor.
E esta é ela sentando na calçada, apoiando o rosto nas mãos e se diluindo no horizonte feito uma onda de amar.

Nos fones de ouvido: Wave Come Fa Un'onda


De um álbum de invisibilidades X

Esta sou eu em um antiquário a espirrar o pó de mundos antigos à procura de uma porta que se abra para o meu. Sou eu passando as mãos em restaurações e dizendo ao vendedor que nenhuma serve porque estão todas sem cicatrizes e mudas.
Esta é uma porta afastada das outras, coberta de teias de aranha, com flores  sobreviventes ao sol e à chuva e com um casal  sobrevivente desenhado à caneta no lado de dentro.
Este é o vendedor  falando que pode apagar os desenhos e lixar a madeira e a colorir e a deixar novinha em folha.
E esta sou pensando esse cara é um porta e dizendo a ele que não se atreva a tocá-la.
Estas são o meu pai na minha casa nova  elogiando os enfeites, a televisão, a geladeira e querendo saber o preço de cada coisa.
E o meu pai parado em frente a minha porta descoberta de teias de aranha,  mas ainda com flores sobreviventes ao sol e à chuva e com um casal  sobrevivente desenhado à caneta no lado de dentro  exclamando, minha filha, nunca vi coisa mais feia!
Esta sou pensando como esse porta pode ser o meu pai.
E esta sou eu, tamborilando os dedos sobre uma coxa, parada diante de quatro elevadores, querendo ir a um décimo andar.
Esta é uma mulher de coque,  vestido preto e avental branco dentro do primeiro elevador a se abrir.
E esta sou eu perguntando a ela se vai subir ou descer, e ela olhando para o chão, falando baixinho que, se eu preferir, pode sair e usar o de serviço.
Esta é a minha cara de choque, explicando que perguntei se o elevador está subindo ou descendo e não se ela  está subindo ou descendo, que, se ela também for subir, fico contente por ter companhia.
E esta é a de um sorriso surgindo no rosto dela, ou talvez de uma cicatriz, antes de eu entrar.

Nos fones de ouvido: Ponteio

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades IX

Esta sou eu, os meus fones de ouvidos e os meus cães: o melhor cão do mundo e um cão caminhando em um final de tarde.
Este é o sol indo embora nas águas de um rio e adentrando nas da minha memória.
E este é o cão de costas para mim defecando sua animalidade bem no meio da calçada.
Esta sou eu pegando com o saquinho plástico a sujeira e reclamando o local escolhido. 
Estes são o cão, o melhor cão do mundo e eu depois de três quadras e nada de encontrar uma lata de lixo.
Este é o melhor cão do mundo um pouco mais afastado das minhas pernas do que o habitual e  esse é o  um cão mais perto sacudindo a cauda.
Estas sou eu dizendo bingo diante de uma lata de lixo enorme e aberta em frente a um edifício do outro lado da rua.
E eu atravessando a rua, cantarolando contente por ter encontrado uma lata de lixo enorme e aberta e lembrando dos meus desastres  nas aulas de educação física e arremessando o saquinho plástico em uma cesta imaginária.
Este é o saquinho de plástico sobre o cimento.
E esta sou eu  rindo e pensando que motricidade ampla nunca foi mesmo o meu forte enquanto me abaixo para recolher o meu erro.
E eu bem perto da lata de lixo jogando outra vez a animalidade de um cão.
Esta é animalidade  caindo sobre um ser vivo que abre sacos de lixo.
Estes são os cabelos ressecados, a boca rachada e as pernas de menino do ser vivo que abre os sacos de lixo.
Estas são as mãos dele tentando proteger o rosto.
Estas são as  minhas mãos largando as guias dos cachorros.
E estas são o meu coração rolando corpo abaixo rumo ao cimento.
A minha mente em alta velocidade me acusando de ser um lixo.
E  eu me debruçando e recolhendo, do colo dele, o saquinho plástico.
E estes somos nós dois, nossas lágrimas  e o horror.
E esta sou eu,  caminhando outra vez pelas ruas carregando a animalidade de um bicho.

Nos fones de ouvido: Haiti

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades VIII

Esta sou eu chegando na casa de uma amiga com os  meus cabelos escovados, o  meu rosto maquiado, as minhas unhas pintadas e pronta para ir à missa e depois pegar um avião.
Esta é a minha amiga dentro da casa nova dela me esperando com outras amigas.
E é ela me dando um abraço bem forte.
E estas são todas elas juntas me dando um abraço mais forte, me dizendo  vai ficar tudo bem, estamos com você.
E esta é a sogra da minha amiga, sentada em um banquinho fazendo tricô.
Esta é a minha amiga dizendo: dona fulana, essa é a beltrana de quem lhe falei, foi ela quem perdeu a mãe, minha madrinha.
Esta sou eu parada em pé diante do movimento constante das agulhas e do par de olhos sobre mim.
Este é o olhar imóvel da sogra da minha amiga  por cima dos óculos a me radiografar de cima abaixo.
E esta sou eu meio sem graça diante da inspeção e pensando por que ela não diz nada nem se levanta.
Esta é ela, grudada no acento,  articulando os lábios para perguntar com calma: morreu de que a sua mãe, minha filha?
E esta sou eu liberando um suspiro, relaxando os ombros, aliviada com o interesse e diminuindo a tensão.
E eu respondendo também devagar: a mãe morreu de câncer.
E esta é ela me dizendo  gente ruim morre de câncer.
Esta sou eu morrendo  mais um pouquinho.
E esta é a minha amiga puxando a sogra pelo braço, exclamando dona fulana o que é isso,  e a levando para tomar uma xícara de chá na cozinha.

Nos fones de ouvido: Mãe

De um álbum de invisibilidades VII

Esta é ela com sandálias pretas de verniz amarradas aos tornozelos balançando o corpo lentamente de um lado para o outro.
Estes são os tecidos dela vestindo de nuvem a sala bagunçada de brinquedos.
E esta é ela cantando won't you stay in my arms enquanto o corpo gira sedução.
E estes são eles calando os gritos e a correria.
Esta é a menor fascinada pelas sandálias pretas de verniz amarradas aos tornozelos da mãe.
E a menor acompanhando com os ombros a mãe, querendo ter a pele de pêssego da mãe, a boca vermelha da mãe, as mãos da mãe, desejando ser leve como a mãe.
E esta é a maior dizendo chega para lá que também quero um lugar no sofá.
E estas são as duas, os três, os cincos fascinados.
E estas são a menor voltando a um quarto cor de rosa, passando a mão sobre o papel de parede antigo, sentado em frente ao tocador já sem perfumes, sem estojos e sem um abajur com pompons.
E a menor abrindo a mala, as lembranças, o guarda roupas recheado de figurinhas e de datas.
E lendo, nos números, os primeiros beijos, as primeiras noites, o primeiro amor.
E olhando para o terninho marrom sobre a camisa de seda pendurado em um solitário cabide e para um par de sapatos discreto como a mãe.
E  chamando por  aquela que foi também um útero e perguntando  que traje é esse no meu armário?
E esta é esse outro útero, respondendo, com os olhos arrasados,  que são as roupas com que sua mãe quer ser enterrada e  que pediu para você ver.
E esta é a filha de ambas,  sem enxergar mais nada, dizendo que sim, que diga à mãe que essa está bem.

Nos fones de ouvidos: The Way Old-fashioned

De um álbum de invisibilidades VI

Este é um quarto com paredes azuis, um par de passarinhos sobre a cômoda e mais um tip top sendo pendurado em um cabide.
Esta é ela sorrindo, dizendo a ele que o quadro tem de ficar mais perto do berço.
Este é ele carregando uma bolsa e uma malinha e pegando as chaves do carro.
E esta ela respirando um pouco mais rápido, perguntando se ele pegou mesmo a malinha.
Estes são os dois na sala de parto.
Estes são os dedos dele alisando o rosto dela  prontos para receber a obra feita a quatro mãos.
Este é o médico falando força, vamos, está quase lá.
Estes são os óculos dele embaçando os olhos de primeira viagem e registrando, sobre o seu, o choro de um bebê.
E este é um bebê livre de líquidos e de um cordão.
E estas são ele contando os dedinhos de um bebê livre de líquidos e de um cordão.
E ele reconhecendo o mapa de sua geografia na nova vida.
E este é o mapa dela sendo reconhecido na geografia da nova vida.
Estes são os três voltando para casa  e para um quarto de amor.
Estas são ele reafirmando o seu afeto algumas noites depois.
E ele colocando em dúvida o seu afeto alguns anos depois.
E esta é ela chorando, implorando em nome de todos os umbigos  pelo antigo amor.
E estas são ele outra vez se deixando levar por líquidos e por cordões.
E  garantindo a ela que não foi nada sério e a outra pessoa é só um engano.
E escrevendo, deixando claro em preto e branco o seu  foi tudo um engano.
E  ele fechando a porta, desligando o telefone, desligando o coração.
E esta é ela sorrindo, dizendo a ele que o quadro tem de ficar mais perto da cama.
E esta é  o engano sabendo que é um engano, fechando a porta, desligando o telefone e implodindo o coração.

Nos fones de ouvido: I love you


terça-feira, 27 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades V

Este é um quarto com paredes amarelas, um par de ursinhos polares sobre uma cômoda e mais um tip top sendo pendurado em um cabide.
Estas são ela com uma barriga pontuda, sentada na cadeira de balanço que era da avó fazendo planos para o futuro.
E  ela transpirando,  tonta e com um pouco de dor.
E deitada em uma maca em uma sala de pré parto respondendo a uma médica que não, não entende direito o que está acontecendo.
Este é o teto branco da sala de pré parto maculado por uma aranha a caminhar no roda forro.
Estas são ela, assustada, chamando por uma enfermeira para matar o bicho que deve carregar infecções.
E  ela, mais assustada ainda, dizendo à enfermeira  acho que rompeu a bolsa, e a enfermeira dizendo, não, você está tendo uma hemorragia.
Esta é a anestesista errando a picada e atingindo, na coluna, um nervo e um grito.
E esta é ela em um estado de nervos de dar dó.
Esta é a outra médica negando o pedido por uma cesariana, descartando a opção, dizendo não vale a pena porque essa criança não é compatível com a vida.
Estas são ela implorando por um fim e ignorando que também corre risco de vida.
E em contrações, perdendo os sentidos e acordando e perdendo os sentidos e acordando e perdendo.
E ela na Unidade de Tratamento Intensivo ao lado de uma mulher que geme, geme e geme.
Estas são duas plantonistas comentando o quanto é dolorida a plástica da mulher que geme, geme e geme.
E esta é uma delas dizendo à outra que não se preocupe com a  moça silenciosa, a moça silenciosa  só perdeu um filho e isso não desencadeia  tanta dor.

Nos fones de ouvido: Travessia

sábado, 24 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades IV

Esta sou eu descobrindo o perfume das páginas e alisando a capa fosca de um livro.
Este é um livro a alisar o meu rosto com sua capa fosca em frente a estante de uma grande livraria.
Estes são alguns curiosos achando esquisito o império dos  meus sentidos sobre o papel.
E estas sou eu a suspirar as sensações da escrita já na fila do caixa falando para as outras pessoas que essa, sim, é uma obra.
E sou pedindo à vendedora que faça um pacote bonito e passe nele um laço de fita.
Esta sou eu colocando as mãos na cabeça,  espantada com o quanto você é desajeitado.
E este é você salvando a vítima  e a si mesmo de uma poça.
E esta sou eu a rir, perfumando os seus cabelos com as minhas mãos, alisando o seu rosto com as minhas mãos e deixando-me levar pelo murmúrio das suas  palavras enquanto você seca com o casaco o que resta de água.
Estas são a minha caligrafia aprendendo a sua temperatura e as suas linhas como se estivesse em oração.
E o meu coração abafando os sinos de uma  catedral e calando o seu falatório com o meu beijo.
E  a minha fé sendo resgatada por datas inscritas em um chão de poetas.
Estes são os meus olhos abraçados ao seus como se neles fosse possível ler um feliz título.
E este é você falando com as beatas e se balançando em direção ao banheiro a me dizer não demoro.
Esta sou eu contando os segundos e os batimentos cardíacos.
E este é você acelerando o passo.
E estes somos nós dentro de nós e dentro de um carro.
E estas sou  eu dizendo preciso ir embora, e você abrindo a porta.
E  eu paralisada por lágrimas enquanto você acelera rumo ao destino.

Nos fones de ouvido: All of me


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades - III Parte

Estas sou eu, na cozinha, fazendo pipocas.
E eu sentada no sofá em frente a TV, assistindo A Primeira Noite de um Homem e oferecendo a ele os meus pedaços de nuvens.
Este é ele um pouco desconcertado diante da Sra.Robinson.
Esta sou eu fazendo cócegas nele e dizendo: conta, conta!
E este é ele curioso sobre a primeira noite de uma mulher.
Esta sou eu e o som da memória.
Estes somos nós: um outro ele e eu deitados na mesma cama noite e dia.
Esta sou eu caminhando a minha inocência pelo quarto.
E este é o outro ele  medindo meus contornos com a boca e com as mãos.
E estas são você em um outro lugar.
E você oferecendo a ela a primeira noite de uma mulher, oferecendo a ela as muitas noites de uma mulher.
Estas sou eu pensando em ser a noite de um homem qualquer.
E eu acordando com um homem qualquer, dizendo não, não, deixa que eu ligo.
E  passando os dedos sobre o catálogo, procurando o seu número de telefone.
E sentada duas fileiras atrás de vocês e me segurando para não jogar pipocas nos cabelos dela, para não me levantar e rodar uma baiana, uma interiorana e um big drama.
E este é o seu braço sobre os ombros dela.
E este são os seus cabelos misturando-se aos dela.
E estas são a minha raiva tocando no carro.
E eu ouvindo Slave to Love, rindo e dançando com uma lingerie de renda branca.
E este é um novo ele se derramando de vinho e de afeto.
Esta sou eu me derramando em lágrimas, assistindo, de novo, A Primeira Noite de um Homem.
E esta sou eu contando pipocas sem saber por que você não vem para perto.

Nos fones de ouvido: Slave to Love

terça-feira, 20 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades - II parte

Estes são os meus cabelos cobrindo meu coração de pão de mel naquele carnaval em que rasguei minha fantasia e você se atirou na piscina.
Estas sou eu, sem os cabelos de Rapunzel, fingindo que durmo sob o sol para você olhar para o meu pescoço pálido e fininho.
E  eu  saindo de fininho com meus óculos escuros, despachando a mala, abanando para o ar, chorando o mundo lá de cima.
E eu e o último aniversário da minha mãe antes de eu sair de fininho, colocar os óculos escuros, despachar a mala e abanar o ar para chorar o mundo lá de cima.
Este é um rapaz com um jardim no olhar esperando, no desembarque, por outra pessoa.
Estas sou eu passando por ele e pela outra pessoa,  tropeçando em mim mesma, atrasada  para o trabalho e pedindo pressa ao taxista.
E  eu aos gritos, dizendo siga aquele outro táxi porque o Raduan Nassar está nele e pouco me  importa se ele vai em outra direção.
E este é o taxista a me espiar pelo retrovisor e a seguir aquele outro táxi que estamos prestes a perder de vista.
Estas sou eu sentada na mesa ao lado da sua na padaria da esquina: inconformada, quebrada  e  já quase demitida no início do mês.
E eu relendo o meu Um Copo de Cólera enquanto como o pão com manteiga que a solidão amassou.
E este é você,  tão perto, sem poder enxergar um palmo em frente, ao lado e atrás do seu nariz, lendo Memórias Póstumas de Brás Cubas enquanto come o pão com manteiga que a solidão amassou.
Esta sou eu fechando a porta e descendo a avenida à pé, dizendo não, não, o relógio é meu e a dona da raiva sou eu.
Estes são meus amigos rindo do meu desatino em enfrentar um pivete.
E os meus amigos e eu com cara de mais espanto do que a de enfrentar um pivete diante da cena final de um filme.
Esta é a minha amiga, cansada de cinema, dormindo uma última noite em meu quarto antes de partir.
E esta sou eu me sentindo partida.

Nos fones de ouvido: Promessas demais.




domingo, 18 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades - I parte


Esta sou eu na fila para comer canjica.
Deve ser inverno porque aparece embaixo do guarda pó branco uma gola alta. E eu devo ter uns sete anos porque, no meu sorriso, a porteira está aberta.
Esta sou eu lendo A Chave do Tamanho e pensando se o meu cachorro seria capaz de me engolir, se meus parentes seriam capazes de me engolir, pensando quem seria capaz. As  bolachas Maria entre os dedos são porque eu sou magra de ruim e não de fome ou enfastiada.
Esta sou eu de macacão.
Meu pai disse que eu quando eu morrer irei para o planeta dos macacos. Por merecimento. Cada macaco no seu galho é melhor que todos misturados.
E esta sou de camisola de flanela combinando com o chinelinho. O laço de fita no cabelo revela minha fase Alice no país das Vacarias e a admiração pela minha mãe sempre arrumada e cheirosa para dormir.
Esta sou eu chorando porque a mãe da minha colega veio devolver o relógio que dei a ela, dizendo que a filha não é ladra, que é pobre mas é honesta.
Esta é ela chorando depois de eu dizer, sim, claro que sua filha é honesta.
E esta é a filha chorando me dizendo que não vai mais ser minha amiga.
Estas sou eu na reunião dançante com as minhas outras amigas.
E euu na reunião dançante que eu pensei que você ia falar comigo.
Fiquei meia hora escovando os cabelos para que eles tivessem mais brilho. Passei brilho nos lábios.
Esta é você com ela.
Pensei em recortar a foto. Mas é impossível recortar a verdade.
Esta sou eu e ele no dia em que ele chegou lá naquela outra festa em que você também não foi falar comigo.
Esta sou eu e ele de mãos dadas.
Esta sou eu sozinha.
E esta sou eu e a mãe que realmente me cuida me dizendo que vai ficar tudo bem.
Estas sou eu escrevendo uma cartinha para a minha melhor amiga, dizendo a ela que vai ficar tudo bem.
E eu lendo Pais e Filhos sem entender quase nada. Ou entendendo quase tudo e por isso um tanto nauseada.
Esta comprando briga com a perua que furou a fila.
E eu brigando com o grandalhão que deu a entender que a minha irmã é uma galinha.
Esta sou eu brigando com o meu pai porque ele não quer que eu seja uma galinha.
Esta é a minha irmã  me chamando de galinha porque passei o final de semana na praia com o namorado.
Esta sou dizendo  a um professor que ele pare de cantar de galo, que depois da aula eu vou é para casa.
Este é o  chefe do chefe da minha editora mandando eu fazer uma entrevista no quarto de um sabidão.
Estas sou eu depois da ordem.
E a minha expressão de desordem. E  a minha mão que bate. E a minha língua de látego.
E estas?
Destas, falo depois.

Nos fones de ouvido: Joyce, música de um tempo de menina

domingo, 11 de novembro de 2012

Como o remorso perdido de um título


Nada disso deixará um instante.
E um anoitecer encobrirá o que poderia ter sido.
E lido como um livro não escrito,
como o remorso perdido de um título.
Nada disso deixará um instante.
E ela verá as palavras  multiplicando-se
sobre as mãos magoadas.
E, com os olhos ignorantes e encharcados de afeto,
pousará a fé por entre os contornos do bilhete
e da caligrafia não traduzida
do que ela sente e deseja
de cor e salteado.

Agora respire fundo


Diga trinta e três.
Diga outra vez.
Agora respire fundo.
Dói?
E se eu pressionar aqui?
Mais? Menos?
Como não importa?
Podemos bater um raio X.
Não é necessário, você  sabe o que tem?
Asas?
Não entendi!
Asas dentro dos pulmões...
Você tem asas dentro dos pulmões?
Asas de frango? Patos? Perdizes?
Se engasgou?  Mas que pássaro engoliu?
O seu?
De onde tirou essa ideia?
Não. Não.
Não!
Vamos recomeçar.
Diga o seu nome.
Diga o  nome dos seus pais.
E o seu endereço.
O número do seu telefone?
A cidade em que nasceu!
Certo.
E que dia é hoje?
E o mês e o ano?
Certo.
Certo...
Então, diga trinta e três.
Diga outra vez.
Agora respire fundo.
Respire.
Respire!
Vamos, respire o fim...

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Escreve



Escreve sobre o caldo derramado.
Sobre a sopa.
Escreve sobre o leite.
O leite da infância,
o leite dos copos,
o leite coalhado em flor.
Escreve o leite dos homens.
Do homem derramado na cama, na calçada,
na marca de outra dor.
Escreve sem caligrafia.
Escreve no lençol desafinado
e nas linhas sem clave
da trama, do vício e da morte
do horror.

Em meio a guloseimas e tolices


Para Cris de Souza

Estava à toa no facebook quase como na vida.
Na vida, nada é à toa. Muito menos a comida.
À toa se escreve separado? Será que pode ser junto?
Estava à toa no facebook e era hora do almoço.
E no livro do Manuel António Pina, ele me garantia: no princípio era o Verbo (e os açúcares e os aminoácidos).
E eu estava a comer uma coxinha gorda de galinha que só não estava perfeita porque não tinha Marili, farinha, farofa e companhia.
Havia rima e o diminutivo.
E tudo isso sem motivo.
Estava à toa no facebook, e eu sei que isso não é grande coisa.
Mas veio a Cris, a de Souza, e falou:
" troquei as leituras
de Romeu e Julieta
por goiabada com queijo."
E eu pensei : eis a troca!
Se de amor se morre, de goiabada com queijo se vive.
Mesmo que seja assim em meio a palavras, guloseimas e  tolices.



quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Bicho de dez dedos






Faz um bocado de anos que não tomo refrigerantes.
Também não fumo ou bebo. Um cálice de vinho nas minhas mãos é um cálice de suave eternidade.
E, talvez, meu corpo me agradeça por isso.
Não sei.
Meu corpo costuma ser ingrato e já pensou seriamente em me abandonar.
Precisei implorar: não me deixe.
A alma não nos abandona.
Não é ela quem faz as malas carregadas de adeus.
Faz um bocado de anos que desdobrei meu corpo em dois para que corresse por essa casa o sorriso de um menino.
Um dia, na época desse mesmo um bocado de anos, disseram-me que ele não iria sorrir.
E eu chorei.
E chorar seria o óbvio se fosse fácil, para mim, chorar.
Nunca foi, mesmo quando a fratura era no braço fininho ou quando a fratura era em algum lugar escondido da minha vida de menina que podia ir sozinha ao hospital trocar o gesso.
A mãe precisava descansar a beleza; o pai, o trabalho.
E o destino do leite  derramado sempre foi o de ser limpo.
Então, ainda levanto, nas noites de maior angústia, para pegar em panos e baldes e faxinar os rodapés, as portas, os meus lugares invisíveis.
Deixo tubo brilhando como se  em meus dedos houvesse uma luz divina.
Nos meus dedos há afeto, pensamentos, fraquezas e  forças.
E eu sou humana.
São meus dedos que me movem e me dão vida.
Não são meus pés nem minha voz.
Uma galo não deixa de ser um bípede falante.
São os meus dedos que constroem os meus desenhos, que buscam nos destroços do que despencou para dentro, as cores do meu mosaico.
São  os meus dedos que digitam as letras dos meu silêncios, dos meus medos e das minhas saudades.
São os meus dedos as minhas dores e o meu sossego.
São os meus dedos a  fé que cura as minhas lágrimas.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O sonho da causa própria


Quando eu tinha doze anos, costumava colorir mapas.
Coloria por castigo na biblioteca da escola.
Sim, eu ia de castigo.
Até hoje não sei direito o porquê. Provavelmente porque perguntava mais do que devia e porque não havia feito a primeira comunhão.
Eu não podia fazer a primeira, nem a segunda, nem quantas comunhões fossem necessárias, porque não temia a deus ou ao diabo.
Nunca fui temente a deus, ao capeta, nem ao pai, nem a mãe e nem ao espírito santo.
Temia o velho do saco.
Na minha cidade, o que não faltavam eram velhos com sacos.
No ano passado, comprei um livro sobre ela e rolei de rir ao perceber que, entre doidos e gente que fez alguma coisa que merecesse destaque, sempre foram em maior número os doidos.
Na minha família, tinha um. Um com carteirinha, medicação e camisa de força.
E tinha e tem ainda os que sempre andaram soltos.
O de carteirinha, uma vez, tirou boa parte da roupa, pegou os pés e saiu pelas ruas buzinando e gritando: loucademia de polícia!
Eu sempre quis falar sobre essa loucademia de polícia, mas enquanto meus pais estiveram vivos, minha boca foi muitas vezes desligada.
A gente às vezes é desligada com a mesma simplicidade com que se aperta um interruptor de luz.
Os movimentos são diferentes, é claro. Há uma certa complexidade em torno do ato, um palavrório cheio de justificativas para simular uma certa dignidade, mas no fim das contas, todos sabem do que estou falando.
Não é difícil entender.
A maior parte do que não entendemos é porque não queremos. Por excesso de teimosia, por excesso de medos, por excesso de amor, por excessos gerais.
Os excessos estão sempre a serviços gerais.
E em causa própria.
Em causa própria rende mais que em casa própria.
O sonho da causa própria passou para trás todos os outros.
O sonho da causa própria é o grande amor do ego.
Em nome do ego, se diz uma coisa e depois se faz outra.
Em nome do ego, uns vêem nos outros aldeias e ainda se pensam o mundo!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Se não despencassem tanto as letras




Se...

Não despencassem tanto as letras
do olhar das palavras, 
seria ela capaz de juntar as frases
e de esquecer as linhas 
retas de réguas e de centímetros
imponderáveis em longas distâncias.

Se...

Não andassem tão velozes os dedos, 
poderia ela amaciar
o toque sobre o teclado
e diminuir o ruído da chuva 
e identificar os ruídos dementes do coração.

Se...

Não se quebrasse tanto a escrita
e dela não surgissem tantos trechos 
e tantas personagens,
tingiria ela de vermelho 
o que se esconde no preto no branco
da pele encharcada de amor.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Queria contar a verdade para alguém uma vez na vida


De vez em quando reabro livros já lidos.
Nessa madrugada, escolhi o De Verdade, do Sándor Márai. 
Pé por pé caminhei até a prateleira de autores húngaros.
Poucos na estante  por razões editoriais. Não por falha minha. 
Eu corro atrás, mas às vezes não tem nada na frente.
Encontrei dois. Dois De verdade. Dupla verdade. 
O meu todo riscadinho.
E o outro meu com a dedicatória de uma amiga.
O meu todo riscadinho terminei de ler em vinte e dois de maio de dois mil e cinco.
Um ano bom. Ou eu pensava que era.
Alguns anos são bons como vinho.
Outros são leite derramado.
Este ano, dois mil e doze, apesar de quase liquidado, está sendo  mais sólido.
Um ano em que é preciso mastigar bem antes de engolir.
Mastigar antes de engolir dos grãos às verdades e suas mentiras.
Há de se dizer a verdade mesmo que seja mentira.
E eu queria contar a  minha verdade para alguém uma vez na vida.
Uma vez na vida é uma vez e só.
Uma única vez como é o amor.
E o amor não é amar um no passado, outro no presente e alguém mais no futuro. 
O amor não é um mar entre ilhas.
Talvez seja, nem sei, porque tudo o que um dia foi dito pode ser no seguinte desdito, e as chances de eu estar enganada são altas.
Bem mais longilíneas que eu com a minha estatura mediana e meu peso leve no corpo e inversamente proporcional na alma.
O inversamente  proporcional não deixa de ser um eufemismo.
A palavra certa seria neurótica na alma.
Neurótica e dependente de sessões de terapia.
O que pode também ser um eufemismo da minha condição de burguesia.
Pago para poder dizer o que sinto, penso e logo existo a uma pessoa em quem confio.
E me sinto, penso e logo existo, sim,  exatamente como  escrevi na página 392 do meu De Verdade todo riscadinho: eu sou uma burguesa  imbecil.
Sou uma burguesa imbecil e também uma babaquinha. Não muito grande, mas sou.
Faço parte do grupo de pessoas que guardam todo tipo de coisas inúteis nas muitas coleções.
Faço parte do grupo de pessoas que costuma se iludir dizendo que está a guardar informação, cultura, afeto etc.
E é mentira.
De verdade,  guardo solidão e fantasias.

sábado, 29 de setembro de 2012

Da série escritos dentro de um livro


Da arte de escolher nuvens e descobrir seus sexos
Das rachaduras do avesso
Das coisas trincadas na língua
Da inutilidade de um cardume de gentes
Do que cresce entre as mãos e se revela em abandono
Do que se fecha como uma passagem e se abre em cicatriz
Das coisas que não digo e que não sei
Surge a palavra incompleta
do voo curioso
e  adornado de amor.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Tamanho não é documento II




Faz tempo que não tento cronicar.
Talvez porque a palavra crônica traga em sim muitas mensagens, e nem todas me sejam favoráveis.
Vem do grego chronos. 
E chronos é tempo. 
E tempo não é dinheiro como dizem por ai.
Time is not money!
Tempo somos nós. Cada um dentro da sua brevidade e de sua insignificância.
Somos insignificantes mesmo que alguns pensem ser grandes riquinhos, grandes ricaços. 
Grandes issos e aquilos.
Enfim, importantes.
Importância é algo relativo.
Muito relativo.
Tamanho cabe mesmo é em réguas e gráficos.
Em pessoas, se ajustam melhor  sensibilidades, criatividades, intensidades e outros ades.
Quem sabe cidades? 
O Rio de Janeiro é um zilhão de vezes maior que Vacaria. 
Vacaria cabe inteirinha dentro do Maracanã e ainda sobram algumas cadeiras para os bairros de uma  comunidade vizinha.
Como metáfora, ser uma cidade grande ou pequena até cai bem. 
Ter ruas, esquinas e parques dentro de si areja os esgotos, os buracos e as violências que também somos.
Mas mais que isso não faz.
Fulano não é maior que beltrano porque fulano mora em uma metrópole.
Fulano, certamente, tem ao alcance das mãos mais arte, lojas, restaurantes, tecnologias.
Entretanto, ter não é  ser.
Não é. 
Todo mundo sabe.
E é bem possível que o fulano não passe uma tarde sentado em frente a um Picasso há séculos.
Do mesmo modo que é bem possível que o beltrano tenha terminado hoje de manhã  de ler a biografia  do gênio, sentadinho ali perto do seu fogão e tenha se emocionado diante de uma fase azul.
Como disse o Veríssimo, oh, Luis Fernando Veríssimo: a gente pode ser cosmopolita vivendo em uma cidade pequena e um caipira vivendo em uma enorme.
A gente pode ser grande ou pequeno por fora.
Pode ser maior na  cintura ou na conta bancária.
Pode em tantas coisas.
Mas, nas incomensuráveis, não.

sábado, 15 de setembro de 2012

Posses



Tenho sonhos de criança muito grandes para esse corpo de mulher.
E um sangue mudo a correr pelas veias.
Do ponto em que começa o silêncio até o deserto da escrita.

Tenho fotografias coloridas e em preto e branco.
E um registro imutável de memórias gravado em buscas.
Desde o encontro até a ausência.

Tenho beijos fora da boca afogados na saliva das saudades.
E a imensidão do tempo contra a pele.
Das manhãs que não encontraram as tardes e esmagaram as noites.

domingo, 9 de setembro de 2012

Como se fosse simples


Subiu o coração
e acariciou o céu
e derramou amor
como se fosse nuvem.

Subiu o coração
e despencou palavras
e escreveu suspiros
como se não houvesse pressa.

Subiu o coração
e abriu os olhos
e molhou a poesia
como se criasse pele.

Subiu o coração
e cresceu inteira
e se viu delicada
solitária
e imensa.




segunda-feira, 3 de setembro de 2012

ÉBANO E MARFIM


Um Homem e uma Mulher executam a partitura das dúvidas de uma relação amorosa. O momento foi transcrito em pauta musical para ser tocada ao piano, em duo. 
Tocaram a melodia
Lelena Terra Camargo (Marfim) e Eleonora Marino Duarte (Ébano), em concerto intimista...




ÉBANO E MARFIM

Meus dedos não tocam um cemitério de pianos.
«Os pianos não têm cemitérios, eles ficam flutuando em nossos ouvidos, dando aos sentidos um sentido de eternidade, depois de ouvir, por exemplo, Bach, quando você se senta ao meu lado e viaja comigo em silêncio pelas notas ou pela estrada.»

Exceto pelo livro que leio.
«O livro que leio é um “livro policial”, que envolve questões de estado, coisas com o governo e traz regras e jogos que não posso explicar a você, mas você gostaria das frases, as destacaria, as coleccionaria até, pois os detalhes lhe interessam, as minúcias, os pormenores, enquanto que o meu gosto é pela visão geral»

Meus dedos tocam um cemitério de mal entendidos, se é que é assim que
se escreve.
«É assim que se escreve, mas não é assim que deves sentir. Os mal entendidos eu os entendo com um certo lamento, mas não muito, lamento mas não demoro mais do que uma respiração na lamentação. Estamos entendidos?»


E tocam porque não escrevo com os dedos de outra pessoa, nem leio com
o par de olhos dela.
«Toco com os meus dedos os pianos que não tenho e que não invento, pois os toco através de tocar os seus cabelos quando estas distraída e eu não sei se pensas em mim ou se lembra de outro. Se pensas Nela, perdes os teus pensamentos, desperdiça-os»
«toco os dedos dela»

Dele.
Mãos e olhos dele.
«Os dedos e os cabelos dela foram tocados, transfiro o toque para os teus. Sou um transfigurador de toques, um improvisador de sentimentos… toco-lhe os dedos, os meus dedos tocam-lhe a palma da mão macia, mas ela não sente, está viajando até o passado e pensa se penso nela, na outra, uma outra que já esteve no lugar dela»

Leio e digito com meu par de óculos arranhados e com a solidão do meu
tempo e das minhas palavras.
«leio e digito com o meu par de óculos usados e com a bendita solidão do meu tempo e das minhas palavras.»

Leio tentando dizer do afeto que sei.
«Leio e acho que sei o afeto que dou.»

Afeto carregado com o seu nome composto de homem e com seu corpo à
prova de silêncio, distância e morte.
«Afeto feito do seu calor, da boca que abres ao vir beijar-me, das vestes que tiras ao cobrir-se comigo, das palavras sussurradas entre um suspiro e uma solidão repentina.»


Afeto voador aprisionado tamanho o peso.
«afeto que me afetas na peso das tuas dúvidas e me afeta mais que não tenhas segurança em ser segura por mim, entre as minhas mãos que não são uma extensão das mãos de um Deus protector!»

Aço em vez de pluma.
«Tu és emoção em vez de razão
eu sou ação, razão e emoção»

Sentimento em que coexistem os verbos de nossas línguas e do nosso
eterno: “eu não sei escrever e você não sabe ler”.
«sinto-me inseguro por sua insegurança. Não quero te ler, quero que te leias e me contes sobre si, de forma breve, entre beijos e alegres sorrisos, sem peso, sem pena. Conta o que sentes e eu te consolo dano-lhe a maior das coisas que tenho, o meu furor, a minha delicada ira desenfreada pela pele do teu corpo, pelo odor do seu amor.»

Dois analfabetos do querer.
«Sou Alfa e Beta do desejo, mas não sei dizer como queres ouvir, só sei penar ao teu ouvido ouvindo o teu gemido..»

Dois gulosos por pedaços seja de felicidade ou de mágoa.
«Não existem mágoas, existem decepções. A mágoa foi inventada pela mulher.
(a minha gula é pela felicidade de saber que nunca te conquistei, que és segura, que és madura e que no fim da noite, me ponhas a dormir, como um bebê…)»

Quando escrevo a ele, tu, ele entende você.
«nada entendo quando me escreves, tudo sei quando me amas...»

Quando ele me diz você,  às vezes, entendo ela.
«quando te digo amor, dizes-me que disse a ela. Eu disse a ela, mas o “Ela” agora é você.»


E aí ela sou eu.
Ou ela é ela?

«Ela são todas as Elas que terei ou tive. Elas são para mim o Elo. És o meu Elo da vez, és a Ela de agora.»

Ele diz que ela não é ninguém.

«Ela e tu são o que somos, partes, desencadear, vida que segue. Não serão ninguém, porém, se alguém amanhã vier a ser uma Ela. Mas se Ela quiser rever-me ou jurar-me amor, a vaidade vai me fazer pensar, não Nela, mas no elo que deixei dentro dela»

Mas se ela não é ninguém por que eu não posso ser eu?
«Ela e tu não são ninguém. Eu e tu somos nós.» 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Debaixo do manto


Vestiu as mãos com palavras rasgadas.
Feridas de papel e cruz.
Vestiu as fotografias com fogo.
Calor derretido em mentiras.
Vestiu a cor com manchas.
Fendas na pele do afeto.
Vestiu o relógio com um único instante.
Horas divididas no centro infinito.
Vestiu os olhos de falas.
E os ouvidos de mágoas.
Vestiu a verdade com verdades.
E despiu-se do homem.
Da crença.
E de seu nome.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

E ele não viu



Passou uma moça e um sorriso, e ele não viu.
Passou às gargalhadas, derrubando garrafas de água de uma sacola furada.
Passou pela porta de entrada, pela porta dos fundos, pelo portão de embarque.
Passou pelo mundo.
Passou.
E ele não viu.
Passou com o carrinho de supermercado, comendo maçãs, olhando pro céu.
Passou lendo um jornal.
Passou conversando com o jornaleiro, acariciando livros.
Passou.
E ele não viu.
Passou lenta e pesada.
Passou com uma criança nos braços.
Passou ninando o sonho e garantindo o sono.
Passou no parque recuperando o corpo.
Passou.
E ele não viu.
Passou carregando esperanças.
Passou nua .
Passou de lingerie.
Passou em preto, em branco e em cores.
Passou caindo de amores.
Passou.
E sumiu.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Na semana passada



Na semana passada, vi um carro parado sobre a faixa de segurança, roncando o motor diante do sinal para pedestres aberto.
Atravessei a rua pela frente.
Quis ver o rosto do motorista, do apressado.
E tirei os óculos para encará-lo.
Ele riu.
Riu de mim. Não pra mim.
Riu dono do trânsito, da rua, do vai e vem do dia.
Apropriou-se do tempo mesmo que ali ele tenha ficado apenas uns dois ou três minutos.
Na semana passada, nesse mesmo dia, voltando para casa, vi, como de costume, uma pessoa revirando o lixo.
Separando o joio do joio.
Guardando o joio nos bolsos do casaco roto como se fosse joia.
E vi essa mesma pessoa lavando as mãos em uma poça de água na saída de uma garagem como se fosse ela uma pia limpa.
E ela riu.
Riu  com ternura, quase chorando.
Riu dentro da vida mesmo que tenha recebido apenas o meu olhar por uns dois ou três segundos.
Na semana passada, nesse mesmo dia, pegando meu filho na escola, vi um amigo dele beijando o rosto de uma menina que conheço desde o jardim de infância.
Uma menina de cabelos escuros e lisos, magricela.
Uma menina como a que um dia fui.
E os dois me viram e sorriram uma nuvem de amor.
E eu sorri de volta um átimo de fé.
Na semana passada, nesse mesmo dia, sentei aqui, abri o google,  os blogs e o facebook e percebi que alguns amigos tinham partido e que um havia me excluído.
E me senti um carro sobre a faixa de segurança.
Um joio longe da joia.
E um beijo distante de um rosto feliz.
E eu me lamentei por umas cinco horas.
Cinco como são os dedos das mãos.
Cinco como são os lugares de um carro.
Cinco como o lugar que ocupo na família em que nasci.
Cinco como os degraus que desci.

domingo, 12 de agosto de 2012

Num exercício de cartas


Pelo canto das palavras
uma fileira de olhos desfila
apesar do que dizem
a história
ainda sem fim.

Pelo canto das palavras
uma letra entra dentro da outra
nos pingos de um músculo
blindado
como um céu
afastado do sul.

Pelo canto das palavras
uma moça joga paciência
num exercício de cartas
embaralhadas de nuvens
navalhadas de amor.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Na solidão cheia de pássaros



Sabe
na solidão cheia de pássaros
desenham-se as nuvens
e os cortes das palavras
despedaçadas
nas vidraças.

E eu me pergunto o que haverá depois?

Sabe
sem suas mãos
o céu troca de infinito
e um pouco de azul
é tudo o que se tem.

E eu me pergunto o que haverá depois?

Sabe
ninguém deveria estar aqui
quase três da madrugada
aguardando que um santo
venha morar em si.

E eu me pergunto o que haverá depois?

Sabe
haverá sempre um banco de remorsos
para o cansaço dos enganos
a ausência das perguntas
e o desperdício
das respostas.


quinta-feira, 26 de julho de 2012

Keep calm




Keep calm and tome um chimas está escrito lá no meu facebook.
Chimas é o jeito carinhoso de se dizer chimarrão aqui por essas bandas. Dizer bandas também é coisa nossa. Coisa feito eu.
Eu, euzinha, criatura de mínimos e máximos ajustes e enorme sultaque.
Eu digo TE NEN TE com todos os "e"s.
Eu sou uma BÍ PE DE prenda meio que em forma de mulher, meio que de menina.
Às vezes, um tanto de bicho.
Oh, bicho! Os homens estão matando os bichos, dizia um bicho grilo aqui dessa cidade. Bicho grilo aqui é o mesmo que riponga. Será aí também?
Keep calm and take photos também está lá no meu facebook.
No facebook o que mais tem é keep calms.
E esse keep calm and take photos não precisa tradução.
Nem de Instagram, o aplicativo simulador de talento fotográfico.
Precisa é de um sorriso. Sim, um sorriso e, click, fica feliz o passarinho.
Passarinho feliz não avoa. Passarim contente pousa e mostra o dom, o tango, o blues, o Brasil e o além mar.
Além mar...
Além mar é bonito de dizer.
Muito.
Mas eu sou mais um tipo além ar.
Deve ser por causa do enuveamento das minhas ideias.
Enuveamento é um derivado de nuvem recém criado por mim.
Na verdade, nascido aqui e agora nesse instante, destinado a viver e falecer aqui nesse post. Se bem que eu sou dada a ressuscitamentos.
Nada a ver com reencarnação.
Que depois que eu subir ou descer lá ficarei forever and ever.
Ficarei feito livro na memória de quem lê e ficarei feito livro na estante de quem não lê.
Quem não usa os olhos como pés não vai a lugar algum mesmo que dê a volta ao mundo em 80 dias, viu?
Então, keep calm and read a book.
Eis o melhor dos keeps. O mais eclético.
Ou quase.
Eis o infalível!
Praticamente, o keep calm and read a book é um keep calm and chame o Batman.
Esse keep salva e saltita, alimenta, escorre pelo queixo feito laranja, lima e limão.
E pode ser que marque e manche a camisa das boas almas irreversivelmente. E elas tenham de reconhecer a perda do branquinho bandeira de paz.
Mas e daí se não forem alvas feito neve?
E daí se tiver um tantinho de sujeira eterna nos espíritos?
Eu não sou sabão em pó mesmo que, de vez em quando, chacoalhe feito lava roupas.
Não tenho vocação pra Omo, não!
Você tem?

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Onde está Wally?



Meu nome é uma frase.
E eu sou o verbo.
Depois dele assino seis sobrenomes. Não me perguntem o porquê do delírio. Tanto substantivo me sufoca feito multidão. E sufoco faz mal para saúde, dizia minha mãe.
Minha mãe se chamava Ana Maria. Ela queria que eu me chamasse Mariana.
Para quem não sabe, o nome de solteira dessa bípede falante é Marta Helena Terra Camargo.
Marta Helena foi uma paixão de meu pai e de alguns dos irmãos dele. Talvez, tenha sido de alguma torcida suburbana e organizada.
Dos Camargo, foi.
Não sei quase nada sobre ela. Sei que gostava de ler e de namoro com cama, mesa e banho mesmo que os rapazes fossem todos da mesma família.
Eu gosto de ler.
E gosto de cama, mesa e banho.
Mas nunca tive a mesma sogra duas vezes.
Na verdade, há coisas que não tive nem mesmo uma vez. Poucas, porém preciosas. Assunto para outra hora em outro post, quem sabe, em outra vida.
Nesse, o assunto egocêntrico sou eu e as letras da minha certidão.
O assunto é esse nome que oscila no céu de minha boca para depois de diluído na saliva me escapar como Lelena.
Até hoje minha Marta Helena está um pouco perdida.
Le le na: em três sílabas como Lo li ta, do Nabokov me situam melhor.
Lelena nasceu quase comigo.
Assim que meu pai chegou do cartório e participou a mudança, o ganhei de minha mãe.
Talvez, ela já o guardasse na manga.
Parece que houve uma outra tentativa no nascimento de uma das minhas irmãs. Nome vencido devido a recusa de um irmão de meu pai em batizar a infanta recém nascida com tal graça.
Sei lá.
Sei que por causa de Lelena já fui chamada inumeráveis vezes de Maria Helena, Lúcia Helena, Laura Helena, Ana Helena.
Todas Helenas.
Sabem aquelas infelizes mulheres de Atenas?
E sei que por causa de Lelena, tem gente que ignora que a Marta, a Martinha, aquela cara pálida meio magrela, sou eu, essa bípede falante.
Nos dias de hoje, duas pessoas me chamam de Marta, duas ou três, lembrei de uma terceira. Minha analista me chama de Marta.
Não sei se gosto de Marta.
Marta, marte, morte. Nome de origem aramaica, língua morta.
Lena, Lê, Lelenas, Lelis são variáveis com que simpatizo mais.
Simpatizo ainda que, quando me chamem, eu olhe para todos os lados procurando por mim como quem procura o Wally.

domingo, 8 de julho de 2012

Para os que estão de aniversário


Sete bilhões de pessoas no planeta.
365 dias em um ano.
Se fosse possível fazer uma distribuição exata de nascimentos, daria para se dizer que em um mesmo dia aniversariam mais de dez milhões.
Quantos, não me perguntem.
Talvez, muito mais que isso.
Se for menos, por favor, não me corrijam.
Tentei fazer a divisão com a calculadora e não fui capaz de ler o número tão longo quanto o rio Nilo.
Para mim, é um problema menor decifrar um hieroglifo.
Como nasci em um oito de julho, estabeleci que hoje comigo, me, myself e a minha bipedice pelo menos uns oito milhões de bípedes devem estar acordando com cara de bolo e checando se tem ou não chama para acender uma velinha.
Se eu tivesse um irmão gêmeo como muitos na minha família têm, conheceria bem ao menos um deles.
Ou teria a ilusão de conhecer.
Compartilhar uma experiência uterina, perceber a presença de um outro desde o início, deve acender um outro tipo de luzinha.
Deve ser um aprendizado e uma marca.
Possivelmente, também um consolo.
A gestação que temos com nossas mães, sejam elas depois mães ou más, já é para lá de definitiva e não deixa de ser uma cicatriz que nunca nos abandona.
Não há aniversário em que eu não lembre que no dia em que nasci minha mãe estava 100% comigo.
Foi nosso único dia exato de mãe e filha.
Um dia só nosso apesar das outras pessoas.
O dia à prova de dúvidas.
O primeiro do resto da minha vida.
Os outros oscilaram entre aura e karma, silêncio e festa, entre pacotes de conflito e afeto enrolados em fitas: acetinadas, desfiadas, umbilicais.
Eu gosto de fitas.
Gosto de atá-las e desatá-las.
E gosto de fazer aniversário mesmo que neles se soprem tanto ausências quanto alegrias.
Meus aniversário são uma trégua.
Minhas tréguas são balões, balões de nuvens e de aplausos por poder flutuar dentro desse desafio sem vitória chamado vida.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Desencontro marcado



Ouvi na televisão (televisão para mim é rádio) uma jornalista dizendo que o telefone, o objeto que faz trim trim e a gente atende dizendo alô, tou, hello, está em extinção.
Segundo a matéria, nos EUA, a já baixa média de conversa de três minutos por ligação caiu para um minuto.
Falar caiu. Não foi a linha.
O lance agora é ir direto ao assunto e por escrito usando um smart phone.
Smart phone é uma geringonça, um tipo de mutação telefônica portadora de Internet que se pode levar de lá para cá em um bolso da calça.
Internet, por sua vez, pode ser um sintoma, um vírus, uma doença.
Talvez uma síndrome.
Internet é praticamente um novo cromossomo.
O cromossomo I, criatura mais poderosa que o X e que o Y.
O cromossomo I estabelece que letras, setinhas, corações e um zilhão de novos sinais devem ser digitados quando A quer falar, falar não, entrar em contato, com B ou com C ou com quem for.
E nada de pensar em escrever à mão e usar um envelope e o serviço de correio.
Mão também está em queda.
Cordas vocais mais ainda, mesmo que permaneça em pé o fã clube dos papagaios, catorritas e outros passarinhos violados da Amazônia.
Mas esse é um outro assunto. Gaiolas ficam para depois.
O assunto é o silêncio.
Um novo tipo de silêncio.
A quietude de quem cala a voz e se pensa presente sem perceber a superficialidade das relações sem corpo no mundo moderno.
Dizer mundo moderno é uma coisa antiga.
Não sei como me referir ao atual porque sou cria do passado. Nasci no milênio das trevas.
Falta-me luz para dar a ele um nome.
Faltam-me os olhares, os cheiros, o toque, os gestos humanos de outrora.
E falta-me luz para me dar um upgrade.
Não me falta, no entanto, chama.
Eventualmente, sofro alguma pane e quase apago. Minha mecânica não é de primeira.
Minha curiosidade, sim.
De curiosidade em curiosidade, não mato o gato.
Monto é o meu quebra cabeças mesmo que entre as minhas peça exista um smart phone.
Eu tenho uma geringonça, mutação telefônica portadora de Internet.
Tenho e quase me deixei levar por ela.
Eu estive por um fio usando rede wireless.
Ia esquecendo que tinha boca.
Mas não me contentei em esperar menos de onde devo esperar mais.
E um a um abocanhei os meus desencontros.

domingo, 17 de junho de 2012

Em busca da confiança perdida


Para Lúcia Eichenberg

Na televisão passa o Dirigindo no Escuro.
O Woody Allen interpreta um diretor com cegueira.
Neurótica, é óbvio.
Um psicossomático em busca da confiança perdida.
Eu tenho certa vocação para por no corpo os meus problemas. E tenho, como muitas personagens do Allen, um analista.
No meu caso, uma.
Entre as minhas dificuldades está a de confiar no sexo oposto.
Com todas as críticas que escuto contra o meu, ainda assim, nos penso mais compreensivas. Compreensivas e flexíveis. E essa flexibilidade vai muito além de um espacato.
Quem não sabe o que é um espacato, consulte um site sobre balé.
As gurias, certamente, sabem.
No ensaio sobre a cegueira, à frente vai uma criatura de saias.
Uma grande mulher não é quem está atrás de um homem a acumular quilos já disse um escritor com nome de ave: Ciro Pellicano.
A do Saramago, por exemplo, andava para todos os lados. E de Pilar não tinha só o nome.
Para alguns, ela o matou de cansaço.
No entanto, ele disse: se eu tivesse morrido antes de te conhecer, Pilar, teria morrido sentindo-me muito mais velho. Aos 63 anos, a minha segunda vida começou.
Não sei.
Embora ele tenha vivido bastante, talvez, não seja verdade.
De qualquer forma, ao contrário do que me é de costume, nessa história renego meu lado rodrigueano e passo para o de José de Alencar.
Quero acreditar em Saramago. E quero acreditar no amor de Pilar. O dele esteve acima de qualquer suspeita.
E ele é homem, eu sei.
E eu já disse ali em cima que entre as minhas dificuldades está a de confiar nos homens.
Desculpem os que me lêem.
Não é nada pessoal. Nem impessoal.
Tenho um pequeno bípede. Pequeno que admiro com unhas e dentes.
Tenho amigos.
Alguns de longa data. Uns bem perto, outros lá longe.
O Maurício, peste tão relapsa quanto adorável, acompanha minha vida adulta. O Mau junto com a Lúcia personifica a minha melhor amiga.
Os dois para mim não têm gênero.
São estima pura e pronta.
Tenho o Terráqueo, sangue alienígena como o meu e que me chama de Marte, ou Martilena, aí, já aos risos, irmão que dá um braço e todos os anéis de Saturno para manter em órbita os dedos meus.
Tenho, sim, homens de fé. E tenho também mulheres.
E os colocaria, um por um, nas minhas orações se eu soubesse falar com Deus.

domingo, 10 de junho de 2012

Bem me quer


Tenho, é já faz um bom tempo, tentado escrever sobre o amor.
Amor entre um homem e uma mulher. Ou entre homens. Ou entre mulheres.
Amor, enfim.
Até agora pouco consegui.
Consegui, por exemplo, ganhar dois quilos no último verão.
Troquei as leituras de Romeu e Julieta por goiabada com queijo.
Hoje de manhã, quase tive um insight.
Pensei em escrever sobre o meu primeiro.
Do meu primeiro amor, ganhei um anel de pérolas.
O presente não foi exatamente dele. Ganhei da minha sogra, uma amiga de minha mãe, e eu tinha redondos quatro anos.
A criatura em questão uns dez. Dez  anos de idade e também de ojeriza por mim.
Então,  do pensamento o anel que tu me deste me livrei em segundos.
Lembrei mesmo foi do meu primeiro sutiã.
O primeiro Valisére a gente nunca esquece, dizia a propaganda na televisão.
O meu foi bege. Nude nos dias atuais, e o responsável pelo meu  eterno apreço.
I love sapatos.
I love jeans.
Mas I do love lingeries.
Lingeries, com o tempo, deformam e soltam as tiras, sim, mas não acabam.
Não acabam como no texto do Paulo Mendes Campos.
O Paulo Mendes Campos, nesse domingo, está lá no face da Monique Revillion, escritora a quem admiro e estimo.
E ele diz que o amor acaba para recomeçar de outro jeito em outro lugar.
Pode ser com doçura e esperança.
Pode ser nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova york.
Pode ser em capa de revistas, acrescento. Ou em páginas policiais e  sem retorno ou recomeço, esquartejado da pele aos ligamentos.
Ligamentos resistentes como outros laços.
Laços doentes atados em dor.
Atados à morte.
E quem ama não mata, assisti uma vez na Globo.
Quem ama,  prefere  morrer.
Ainda mais se for para continuar
vivendo.

domingo, 27 de maio de 2012

No óbvio ululante


"Certas frases têm um destino", escreveu Nelson Rodrigues em uma crônica que está entre as minhas favoritas.
O título é:"Ah, o Vinicius de Morais é um ser numeroso que só anda bem em bando", e eu a li no O Óbvio Ululante.
Livro ainda em leitura. 
Talvez, em eterna.
Está em meu sangue reler e eu sou rodrigueana ainda que minha mãe tenha se empenhado  para me levar para o lado alencariano dos dias.
Explico:
Na minha vida, há dois lados ou duas versões, a de Nelson Rodrigues e a de José de Alencar.
Da de José de Alencar, tenho, por força da genética, o biotipo. Com um pouco de sol e um colar de contas nem preciso colocar um cocar sobre a cabeça  para mostrar  quem sou. Aos quinze anos, muito antes de inventarem a chapinha, eu parecia com  a tal virgem dos lábios de mel, aquela que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que o da Rapunzel no alto da palmeira.
E só.
Ou quase.
Do lado Nelson Rodrigues, tenho também por força da genética, entre outras forças, uma mente memorialista e dada a fluxos de consciência ou inconsciência, se é que no frigir dos ovos não é tudo a mesma coisa, e tenho, é claro, vasto interesse pelos bons costumes e seu vasto elenco de perversos.
O slogan  que me atrai não é sexo, drogas e rock and roll.
O slogan é sexo, hipocrisias e família.
Mas o que realmente tenho do Nelson é o hábito de fazer opções imaginárias. Ele, por exemplo, se perguntava se seria pior apanhar na cara ou dar na cara.
Eu, por exemplo, me pergunto se é pior apanhar na cara ou dar na cara.
Isso mesmo. Faço a mesma pergunta.
Apanhar na cara, plaft, já apanhei.
Dar na cara, puff, não dei.
Então, como era de se esperar, não sei a exata resposta. Tenho uma ideia, no entanto.
Assim como toda nudez será castigada ou, dependendo do dia, colorida, bate bocas sofrem punições e estabelecem medidas.
Se uma frase compromete ao infinito, diversas comprometem a existência, ainda mais se elas estiverem registradas em um delicado álbum de feridas.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Vertical e fundo



No ano passado, fui ao shopping Barra ver a exposição sobre o Titanic.
O assunto é velho, eu sei. Mas eu sou, de certa forma, uma pessoa repetitiva e antiga.
Muito.
E isso não é porque eu sou tipo assim uma criatura de outro milênio como afirma o meu pequeno bípede. Eu já era antes da virada.
Se houve alguma vida em mim antes da minha, provavelmente, a vivi sob os 25 quilos medievais de uma armadura.
Tenho certa vocação para ser de aço.
Quando eu era criança, passando-me por um ser fora de moda, quebrei o lustre de cristal que havia sobre a cama dos meus pais. Não resisti à haste de metal frio e a balancei de lá para cá, gritando homens ao mar.
Na minha cabeça, naquele quarto havia uma inundação.
E onde há inundação, há afogados.
Na exposição sobre o Titanic, cada ingresso valia um boarding pass.
Já escrevi sobre isso aqui no bloguinho.
O meu dava direito a um beliche na terceira classe.
E o meu me fez de novo mulher. Não foi o Roger Vadim nem Deus, ainda que eu tenha vindo com nome de alma. Alma Cornelia alguma coisa, uma sueca com um monte de filhos, viajando sem o marido e sem falar língua nenhuma além da do desamparo.
Essa fui eu.
Morri, é claro.
Morri também na semana passada.
Na semana passada, entrei em um sonho que se chamava Alice Entalada bem Debaixo do Ventilador de Teto .
No Alice entalada, havia naturalmente um buraco. Vertical e fundo como deve ser um buraco que se preze.
No meu buraco caí fugindo de um Tsunami.
Antes de encontrar um telhado pra subir, eu tinha de encontrar o meu pequeno bípede, a figurinha que agora me data como quinquilharia do passado.
Encontrei o Fifus. O Fifus é o neto do Bono, o melhor cão do mundo. Por dois dias, o Fifus se chamou Tchê. Como não demonstrou talento revolucionário nem espírito gaudério, enfifou.
E vai muito bem, obrigada.
No Alice Entalada bem Debaixo do Ventilador de Teto, assim que recolhi o quadrúpede, pisei sobre umas tábuas e caímos até a metade.
E foi só eu cair para o pequeno bípede mostrar os olhos de curumim lá em cima.
Vai embora, corre que a água está chegando, gritei.
Ele pareceu não entender.
Então, surgiu outro rosto. Rosto que conheço como o meu, que mapeio como o meu.
Salve-o, pedi.
E quase, quase vi em seus olhos o desenho de um sim.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ovelha negra



No domingo de mães, fui à missa.
Eu não sou de ir. Não fiz a primeira comunhão.
Fui batizada por falta de livre e espontânea vontade. Se dependesse do meu sim, a resposta teria sido não.
Entretanto, submeti o meu pequeno bípede à pia batismal nessa mesma igreja em que fui a missa. Queria que a Ana Paula e o Marcelo se responsabilizassem por ele.
Vai que morro antes da hora.
Teria sido mais animado, é verdade, se eu tivesse ido à festa na casa do Bolinha e toda assanhada.
Não deu.
Fui até a São Manoel abraçar um amigo que perdeu o pai.
Os olhos alagados da mãe dele estavam lá. Muitas mães estavam lá.
Um pouco antes do encerramento, o padre disse que no final daria um santinho de presente para aquelas que deram a luz e pediu, por favor, que ninguém se apresentasse mentindo.
Precisava guardar alguns para a próxima celebração.
Estranhei.
Mas como não sou do rebanho...
Depois, no mesmo tom, falou: "ele aceita quem o teme." 
Ele Deus, de Deus ele falava. Deus aceita quem o teme.
Bem, sou dada a medos, muitos.
Tenho medo de assalto, de atropelar um pedestre, de ser atropelada por uma bicicleta, de ter ter câncer antes de ter Alzheimer, de ver o que não posso.
Mas de Deus não tenho.
Nunca tive. Tampouco do pai, da mãe e do espírito santo.
Tenho medo da maldade, do desamparo e de malucos.
No mesmo dia, encontrei duas.
Dando uma volta na quadra com os meus quadrúpedes, vi uma empurrando um carrinho de bebê.
Fui espiar a criancinha e lá estavam eles, os furões.
Quatro. Perfeitamente cobertos e perfumados.
Furões, pra os que não sabem, são animais carnívoros pertencentes à família dos mustelídeos, sendo parentes próximos do cão. Não sei se latem e mordem. Suspeito que não andem.
A outra, encontrei na missa em que fui abraçar o meu amigo que perdeu o pai.
Beata old school e enfeitada de rosários e lágrimas levava, no corpo, cuecas surrupiadas do filho.
Cuecas, em brasileiro, roupa íntima masculina.
Felizmente, não as vi. Estávamos longe dos banheiros. Obrigada, senhor!
Do anuncio que chegará o dia em que usarei as do meu filho, não escapei.
Usarei?
Deus me livre de viver para saber.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Tamanho não é documento


Para o meu pequeno bípede


Não vai faltar gelo, disse uma revista.
Vai faltar emprego, amigos e felicidade para quem tem baixa estatura, disse a mesma publicação em uma outra matéria.
" Do alto tudo é melhor" e tamanho vale "poder e dinheiro".
Well, e esse well está aqui porque os bois que dão nomes às fontes das notícias não falam a língua de Lê e, entre citá-los e apenas deixar a diferença de idiomas visível, já fiz minha escolha.
Os bois, bem, os bois entraram por conta de Vacaria.
E Vacaria entrou porque eu sou de lá e gosto de dizer: Va-ca-ri-a!
Sei que não é o mesmo que dizer Lo-li-ta, mas isso não importa.
O importante é que, contrariando as previsões alarmistas de uma conferência da ONU sobre o aquecimento global, o mundo não vai acabar, e os glaciares da cordilheira do Himalaia não desceram montanha abaixo e ainda ganharam uns quilinhos.
O Monte Everest, a celebridade das neves, perdeu. Celebridade tem de ser esbelta e deixar à vista só a ponta branca e pura do iceberg.
Se o desmonte do Everest vai gerar problemas, há ainda especulações.
Coisa que não acontece com a família escadinha que ilustra o especial sobre as alturas.
O pai mede 1.78. A mãe, 1.72. E os frutos, sabe-se lá como,  medem 1.96 e 1.92.
Mistérios da natureza.
Aqui em casa, também temos uma escadinha. Talvez, apenas alguns degraus.
De fabricação cem por cento nacional, alcançamos todas as prateleiras, exceto as da cozinha. Usar a travessa marrom de bolinhas brancas implica usar mais que a ponta dos pés.
Bom humor e boa vontade contam, principalmente, para os que já alcançaram o teto dos ossos e tem de socorrer o pequeno  que ainda não alcançou nenhum pico.
Nem o de crescimento.
Nem o de conhecimento.
E que segue atado ao peso das informações preconceituosas de que alegria e realização pessoal se medem em autoridade, metros e cifras.

Leituras a partir de 1 de janeiro de 2012

1. Bilhete seco - Elisa Nazarian
2. Quando fui morto em Cuba - Roberto Drummond
3. O retrato de Oscar Wilde Fragmentos
4. Estrela miúda breve romance infinito - Fabio Daflon
5. Poemas - Wislawa Szymborska
6. Mar me quer - Mia Couto
7. Estive em Lisboa e lembrei de você - Luiz Ruffato
8. O pai invisível - Kledir Ramil
9. Poemas de Eugénio de Andrade - Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva
10. Os da minha rua - Ondjaki
11. A máquina de fazer espanhóis - Walter Hugo Mãe
12. Vigílias - Al Berto
13. Poemas concebidos sem pecado - Manoel de Barros
14. Face imóvel - Manoel de Barros
15. Poesias - Manoel de Barros
16. Compêndio para uso dos pássaros - Manoel de Barros
17. Gramática expositiva do chão - Manoel de Barros
18. Matéria de Poesia - Manoel de Barros
19. Arranjos para assobio - Manoel de Barros
20. Livro de pré-coisas - Manoel de Barros
21. O guardador de águas - Manoel de Barros
22. Concerto a céu aberto para solos de ave- Manoel de Barros
23. Quinta Avenida, 5 da manhã - S. Wasson
24. A literatura em perigo - Tzvean Todorov
25. O remorso de Baltazar Serapião- Walter Hugo Mãe
26. Lotte & Zweig - Deonísio da Silva
27. Indícios flutuantes (poemas) - Marina Tsvetáieva
28. A duração do dia - Adélia Prado
29. Rua do mundo - Eucanaã Ferraz
30. Destino poesia Antologia - organização Italo Moriconi. Ana Cristina Cesar, Cacaso, Paulo Leminski, Torquato Neto e Waly Salomão
31. Tarde - Paulo Henriques Britto
32. Correnteza e escombros - Olavo Amaral
33. Nelson Rodrigues por ele mesmo
34. A última coisa que eu pretendo fazer na vida é morrer - Ciro Pellicano
35. O encontro marcado - Fernando Sabino
36. O óbvio ululante - Nelson Rodrigues
37. O grande mentecapto- Fernando Sabino
38. O homem despedaçado - Gustavo Melo Czekster
39. Dia de São Nunca à tarde - Roberto Drummond
40. O canto do vento nos ciprestes - Maria do Rosário Pedreira
41. Antes que os espelhos se tornem opacos - Juarez Guedes Cruz
41. Desvãos - Susana Vernieri
42. Um pai de cinema - Antonio Skármeta
43. No inferno é sempre assim - Daniela Langer
44. Crônicas de Roberto Drummond.
45. Correio do tempo - Mario Benedetti
45. Gatos bravos morrem pelo chute - Tiago Ferrari
46. Gesso & Caliça - Alberto Daflon Filho e Fabio Daflon
47. A educação pela pedra - João de Cabral de Melo Neto
48. O fio da palavra - Bartolomeu Campos de Queirós
49. Meu amor - Beatriz Bracher
50. Os vinte e cinco poemas da triste alegria - Carlos Drummond de Andrade
51. A visita cruel do tempo - Jennifer Egan
52. Cemitério de pianos - José Luis Peixoto
53. O amante - Marguerite Duras
54. Bonsai - Alejandro Zambra
55. Diciodiário - Valesca de Assis
56. Não tenho culpa que a vida seja como ela é - Nelson Rodrigues
57. Lero-lero - Cacaso
58. O livro das ignorãças - Manoel de Barros
59. Livro sobre nada - Manoel de Barros
60. Retrato do artista quando coisa - Manoel de Barros
61. Ensaios fotográficos - Manoel de Barros
62. A queda - as memórias de um pai em 424 passos - Diogo Mainardi
63. Junco - Nuno Ramos
64. Os verbos auxiliares do coração - Peter Estérhazy
65. Monstros fora do armário - Flavio Torres
66. Viagem - Cecília Meireles
67. Cora Coralina - Seleção Darcy França Denófrio
68. Instante - Wislawa Szymborska
69. Dobras do tempo - Carmen Silvia Presotto
70. Eles eram muitos cavalos - Luiz Ruffato
71. Romanceiro da inconfidência - Cecília Meireles
72. De mim já nem se lembra - Luiz Ruffato
73. O perseguidor - Júlio Cortázar
74. Paráguas verdes - Luiz Ruffato
75. Todas as palavras poesia reunida - Manuel António Pina
76. Vidas secas - Graciliano Ramos
77. Inferno Provisório Volume II O mundo inimigo - Luiz Ruffato
78. O ano em que Fidel foi excomungado - José de Assis Freitas Filho
79. Boneca russa em casa de silêncios - Daniela Delias
80. As cidades e as musas - Manuel Bandeira
81. Billie Holiday e a biografia de uma canção Strange Fruit - David Margolick
82. Inferno Provisório Volume III Vista parcial da noite - Luiz Ruffato
83. Inferno Provisório Volume V - Domingos sem Deus
84. Inferno Provisório Volume IV - O Livro das impossibilidades - Luiz Ruffato
85. Pedro Páramo - Juan Rulfo
86. Zazie no metrô - Raymond Queneau
87. Fora do lugar - Rodrigo Rosp
88. Salvador abaixo de zero - Herculano Neto
89. Inferno Provisório Volume I - Mamma, son tanto felice - Luiz Ruffato
90. A virgem que não conhecia Picasso - Rodrigo Rosp
91. Claro Enigma - Carlos Drummond de Andrade
92. Tempo dividido - Sophia de Mello Breyer Andersen
93. A Rosa do Povo - Carlos Drummond de Andrade

Leituras a partir de 1 de janeiro de 2011

1.Desgracida - Dalton Trevisan
2.Diário de um banana - Jeff Kinney
3. Poemas escolhidos, seleção de Vilma Arêas - Sophia de Mello Breyner Andresen
4. Oportunidade para um pequeno desespero - Franz Kafka
5. Venenos de Deus, remédios do Diabo - Mia Couto
6. Ventos do Apocalipse - Paulina Chiziane
7. Para gostar de ler - Contos Africanos
8. Vinte e zinco - Mia Couto
9. O Vendedor de passados - José Eduardo Agualusa
10. O Fazedor - Jorge Luís Borges
11. Terra Sonâmbula - Mia Couto
12. Barroco Tropical - José Eduardo Agualusa
13. Quem de nós - Mario Benedetti
14. O último voo do flamingo - Mia Couto
15. A carta de Pero Vaz de Caminha: o descobrimento do Brasil - Silvio Castro
16. Na berma de nenhuma estrada e outros contos - Mia Couto
17.O reino deste mundo - Alejo Carpentier
18. Como veias finas na terra - Paula Tavares
19. Baía dos Tigres - Pedro Rosa Mendes
20. O português que nos pariu - Angela Dutra de Menezes
21. Cem anos de solidão - Gabriel Garcia Marquez
22. Vermelho amargo - Bartolomeu Campos de Queirós
23. Meu tipo de garota - Buddhadeva Bose
24. Tradutor de Chuvas - Mia Couto
25. O livro das perguntas - Pablo Neruda
26. O fio das missangas - Mia Couto
27. Luka e o fogo da vida - Salman Rushdie
28. Pawana - J.M.G. Le Clézio
29. O africano - J.M.G. Le Clézio
30. O pescador de almas - Flamarion Silva
31. Um erro emocional - Cristovão Tezza
32. O amor, as mulheres e a vida - Mario Benedetti
33. A cidade e a infância - José Luandino Vieira
34. História do olho - Georges Bataille
35. Destino de bai- antologia de poesia inédita caboverdiana
36. O tigre de veludo- E. E. Cummings
37. Poesia Soviética - Seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho
38. A cicatriz do ar - Jorge Fallorca
39. Refrão da fome - J.M.G. Le Clézio
40. As avós - Doris Lessing
41. Vozes Anoitecidas - Mia Couto
42. O livro dos guerrilheiros - José Luandino Vieira
43. Trabalhar cansa - Cesare Pavese
44. No teu deserto - Miguel Sousa Tavares
45. Uma canção para Renata Maria - Ediney Santana
46. Sete sonetos e um quarto - Manuel Alegre
47. Trópico de Capricórnio - Henry Miller
48. Sinais do Mar - Ana Maria Machado
49. Carta a D. - Andre Gorz
50. E se o Obama fosse africano? E outras interinvenções - Mia Couto
51. De A a X - John Berger
52. Diz-me a verdade acerca do amor - W.H. Auden
53. Poemas malditos, gozosos e devotos - Hilda Hilst
54. Outro tempo - W.H. Auden
55. nem sempre a lápis - Jorge Fallorca
56. Elvis&Madona - Luiz Biajoni
57. Budapeste - Chico Buarque
58. José - Rubem Fonseca
59. Axilas e outras histórias indecorosas - Rubem Fonseca
60. Instruções para salvar o mundo - Rosa Montero
61. A chuva de Maria - Martha Galrão
62. Rimas da vida e da morte - Amós Oz
63. Aqui nos encontramos - John Berger
64. Pensatempos textos de opinião - Mia Couto
65. Os verbos auxiliares do coração - Péter Esterházy
66. Cartas a um jovem poeta - Rainer Maria Rilke
67. A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristovão Rilke - Rainer Maria Rilke
68. Adultérios - Woody Allen
69. Quem me dera ser onda - Manuel Rui
70. Satolep - Vítor Ramil
71. Homem Comum - Philip Roth
72. O animal agonizante - Philip Roth
73. Paisagem com dromedário - Carola Saavedra
74. Não te deixarei morrer, David Crockett - Miguel Sousa Tavares
75. Orelhas de Aluguel - Deonísio da Silva
76. Travessia de verão - Truman Capote
77. Avante, soldados: para trás - Deonísio da Silva
78. Antes das primeiras estórias - João Guimarães Rosa
79. O outro pé da sereia - Mia Couto
80. O cemitério de Praga - Umberto Eco
81. A mulher silenciosa - Deonísio da Siva
82. Livrai-me das tentações - Deonísio da Silva
83. A mesa dos inocentes - Deonísio da Silva
84. Hilda Furacão - Roberto Drummond
85. A estética do frio - Vitor Ramil
86. Poetas de França - Guilherme de Almeida
87. Tarde com anões 7 minicontistas - Carlos Barbosa, Elieser césar, Igor Rossoni, Lidiane Nunes, Mayrant Gallo, Rafael Rodrigues e Thiago Lins.
88. Pensageiro Frequente - Mia Couto.
89. A palavra ausente - Marcelo Moutinho
90. Uma mulher -Péter Esterházy
91. Cartas de amor - Fernando Pessoa
92. A última entrevista de José Saramago - José Rodrigues dos Santos
93. A morte de D.J. em Paris - Roberto Drummond
94. Do desejo - Hilda Hilst
95. Cenas indecorosas - Deonísio da Silva

Leituras a partir de 19 de Julho de 2010

1. La Hermandad de la uva - John Fante
2. Nem mesmo os passarinhos tristes - Mayrant Gallo
3. Um mau começo - Lemony Snicket
4. Recordações de andar exausto - Mayrant Gallo
5. Ladrões de cadáveres - Patrícia Melo
6. O mar que a noite esconde - Aramis Ribeiro Costa
7. Há prendisajens com o xão - Ondjaki
8. E se amanhã o medo - Ondjaki
9. O último leitor - Ricardo Piglia
10. Par e ímpar - Tatiana Druck
11. Paris França - Gertrude Stein
12. Quirelas e cintilações - Luiz Coronel
13. AvóDezanove e o segredo do soviético - Ondjaki
14. Luaanda - José Luandino Vieira
15. Poemas para Antonio - Ângela Vilma
16. Estranhamentos - Mônica Menezes
17. A vida é sonho - Calderón
18. A varanda do Frangipani - Mia Couto
19. Um copo de cólera - Raduan Nassar
20. Antes de nascer o mundo - Mia Couto
21.Lavoura Arcaica - Raduan Nassar
22- Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser - Eduardo White
23. Manual para amantes desesperados - Paula Tavares
24. Materiais para confecção de um espanador de tristezas - Ondjaki
25. Milagrário Pessoal - José Eduardo Agualusa
26. Felicidade e outros contos - Katherine Mansfield
27. Estórias abensonhadas - Mia Couto
28. Fábulas delicadas - Eliana Mara Chiossi
29. O Ulisses no Supermercado - José de Assis Freitas Filho
30. Cartas Exemplares - Gustave Flaubert
31. A Moça do pai - Vera Cardoni
32. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra - Mia Couto
33. Dentro de mim faz sul seguido de Acto Sanguíneo - Ondjaki
34. Bonequinha de Luxo - Truman Capote
35. 125 Poemas - Joaquim Pessoa.

Mundo bípede


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