
" A morte de um filho é uma prisão e dessa ninguém sai."
Uma bonequinha de lixo.





Tá bom. Esse lance de rádio de vez em quando dá nos nervos. Eu sempre fui de ouvir e ouvir de novo, mais uma vez, só mais uma, é a última, eu juro, a mesma música. Era tão bom. Putz, dava um ânimo, um devaneio. Dava até pra dizer lá vem a bípede only one song. E eu gostava. Bípede feliz disco arranhado não era problema. Agora é. De manhã, gravei o Yo Yo Máximo; na hora do almoço, ele começou a encolher e, agora, ele está com um jeito tão miudo, mas tão miudinho, que prefiro ir cantarolar pelas gramas verdes dos vizinhos.
Porque o meu pequeno bípede tem dificuldade motora e lutou bravamente contra o lutador de sumô que segurava o seu braço, uma homenagem a sua força de vontade, disciplina e resistência. Porque a minha Maricota, mesmo carregando o seu notebook para lá e para cá, segue firme com seus postais e acabo de receber mais um, uma homenagem a sua delicadeza. De Umberto Eco:



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Não tem problema se foi deus quem criou a mulher. Nós não mantemos contato. Ele fica parado lá no lado de lá. E eu fico aqui na minha, tentando entrar em contato com aquele que criou a outra criatura, a favorita, que tem tanta sorte que nem se depila. E azar se eu nunca consigo chegar mais perto ou se falta bateria. Os contatos não são imediatos, nem de terceiro grau ou por qualquer via. As criaturas são inatingíveis.
A tentativa é sempre de quinta, quinta categoria, classificação meia dezena, que o número cinco não é o meu lucky number. Que na verdade nem tenho. Maybe zero, de ponto zero, de outra vez tudo de novo. O que também não é pouco, que um pouco de zero muda tudo e, de zero em zero, a conta vai a um milhão, assim como as fantasias, que começam sempre com os de arrasar um pobre coração. Que eu tenho um dream time feito só de aparência, que dos defeitos eu estou assim, digamos, um tantinho além de farta.
" Já tem um tempo que eu não escrevo aqui, um mês me parece. Cabecita de vaca atolada pelo medo da queda.
Divide a cidade em zona norte e zona sul extra-oficialmente. É chamado de Riacho do Ipiranga. Acompanha a Avenida Ipiranga.Quanta cidadania. Leva até o Guaíba a água podre, podríssima, a mais podre e suja da história. Recebe lixo, lixo e mais lixo, inclusive dejetos humanos, e os caras vão lá surfar em meio ao caos da tempestade, porque são publicitários e aqui não tem mar.
Tem merda mesmo. Espaço nos jornais, ganharam, mas um beijo de namorada, quero ver. Talvez da Miss Pig se ela estiver viva.


Ela não está lá, subindo as escadas da estação à procura da saída. Cansada, não levanta quando o despertador anuncia o horário. Vira para o lado e segue torta nos lençóis amassados. Cancela a vida e volta à parte do pesadelo em que dá de cara com a outra na porta do mercado, justo naquele momento em que sorria por ter flores nos braços. A outra usa aquele vestido que ela hesitou em comprar e tem o rosto maquiado e o cabelo, embora igual ao seu, parece mais sedoso. Talvez, seja uns centímentros mais alta. Pode ser apenas um par de sapatos de salto. Ela não usa salto. Tropeça em si mesma sempre. O pé direito chuta o tornozelo esquerdo. Sabe-se lá o porquê e também isso já não importa mais. Ela nunca tinha encontrado a outra, nem em foto. A outra nunca quis aparecer. Nunca reclamou mãe e pai e irmãos e afeto. A outra não precisa de nada e ninguém e, por isso, mal coloca os olhos sobre ela, por isso, apenase segue em frente, muda e pedante, medíocre como ela, mas sem o mínimo vislumbre de o ser.
Do castelo, fragmentos. Como de costume, o senhor bípede lançou-se de guia levando-nos para caminhar na zona da Torre de Ulisses, aquela parte em que as escadas e passagens são, por vezes, estreitas e perigosas e que não há um novelinho de Penélope para a gente se agarrar. Turistas feito a criatura que vos fala tinham poucos. Funcionários, não vimos nenhum. Então, deixamos o espírito medieval tomar conta e percorremos o que foi possível. Feito quando eu era criança e pensava ver índios escondidos sobre as árvores, logo soltei a minha imaginação levemente, apenas levemente, esquizofrênica e imaginei olhos mouros a observar-me. Depois, acabou que a gente deu de cara com uns canhões e os canhões me trouxeram de volta a um mundo mais contemporâneo e o castelo meio que perdeu o seu charme. Fora isso, o horário começava a apertar. Maricota e Leonardo estavam hospedados em Setúbal na casa de um amigo do pai dele, ô amigo, diga-se de passagem, porque havia emprestado para os dois sua BMW conversível, que os dois tinham tido o feliz bom senso, parecem ter bastante, de deixar em um estacionamento lá no Chiado. Podíamos tentar um táxi para ir até lá. Eu gosto muito de andar de táxi. Já o senhor bípede prefere metrô.
Não se importa de perder a paisagem. Cada um de um jeito. Acabou que fomos de bondinho. A linha 28 passava ali bem perto. Veio aquela geringonça charmosa e saltitante, e pulamos para dentro feito cupins diante da madeira. Uma delícia, um doce de ovos ambulante, um pastel feito em convento. Pode não ter sido o mais confortável de todos os nossos passeios, mas foi, sem dúvida alguma, o mais lúdico. E eu costumo ser uma criatura lúdica. Sometimes, até demais.










