terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Baianice


O Rudivaldo Júnior, que nos levou de cá para lá, explicou que a Ivete é a rainha, e o Carlinhos Brown, o rei. Ele disse que o certo mesmo seria dizer que é a Daniela. Então, lá vai a homenagem para quem tem a coroa mesmo sem o trono porque o canto da cidade é dela, sim, e a força que ela tem ninguém explica.

O senhor bípede está preocupado com a minha baianice. Eu estou preocupada com a minha baianice. Se eu falar que até aula de axé fiz, ninguém acredita. E believe me, I did. Meus braços seguem balançando de lá para cá e de cá para lá e eu não sei quando isso vai parar, se é que vai.

Las Vegas é aqui


Senhores e senhoras, ocupem os seus lugares e façam as suas apostas. Os nomes estão na mesa. Depois que sentar, ninguém sai, ninguém sai, mesmo o jogo não sendo a dinheiro. A roleta vai rolar e não é russa; de fato, um pouco húngara. As sugestões votadas estão empilhadas feito fichas. A ordem não é mera coincidência. Bem em cima, está o meu favorito, favoritíssimo, que meu temperamento já não aguenta mais ajustes e não tem vocação para o mundo das exatas, embora reconheça o seu incomensurável valor. Quem quiser, peça um vinhozinho. Por essa bandas, serve-se muita caipirosca.

Mínimo Ajuste
Pimenta nos Olhos
Sem Fronteiras
Oh my Blog
Passaporte Húngaro
Santa Estupidez
Porta Aberta
Além das Fronteiras
Blog Adentro
Passageiro da Chuva
Chovendo no Molhado

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Partida


Cinco blogs encerrados. Cinco pessoas partindo em um silêncio à prova de apelos, longe de nossas mãos, de nosso toque, de nossa voz. Não mortos. Desaparecidos. Palavras como corpos não encontrados, dizendo adeus, despertando a dolorosa sensação das perdas.

Pasárgada

O nome dele era Gustavo, mas no cartão estava escrito Guto. O Guto tem uma baianinha de três anos e para ela nunca falta nada porque ele dirige, sem espelho retrovisor, o seu tuk tuk, ou sei lá como se escreve, o dia inteiro. E leva gente para lá e para cá e vai rindo e voando porque gosta de vento e de companhia. O Guto nos levou para ver a casa do Garcia D'ávila. Uma das minhas ruas favoritas no RJ chama-se Garcia D'ávila. Como eu gosto da rua, tinha simpatia pelo dono do nome. Simpatia gratuita. Não sabia nada sobre ele. A Bahia me contou. Pois o Garcia era amigo do rei. Veio de Portugal com o Tomé de Souza, aquele governador que a gente aprende na escola e, sendo amigo do rei, um dia Garcia ganhou uma Pasárgada, bem pequena, miudinha miudinha. Assim da Bahia ao Maranhão está bom, concordou o Garcia. O Garcia, diz a história, tinha muita energia. Era um cara muiiito esforçado. Trocou trabalho por patrimônio, depois ganhou uns trocados e mais outros e outros e quando foi ver já tinha até uma Casa que era um Forte. E por lá armou-se até os dentes de pólvora e escravos, porque sendo muiito esforçado precisava de ajuda, um pouquinho de apoio, sabe? E conta o Guto que apoio era o que não faltava. E regras também. O "apoiante" podia apoiar e pronto. O "apoiante" podia se rebelar e apanhar e pronto. E o "apoiante" podia tentar escapar e ser açoitado ou enviado para a onça e pronto, porque, na casa do Garcia, que a onça vai comer, isso se sabia. O que o Garcia não sabia é que uma "apoiante", escondida, alimentava a onça para ela não ter tanta fome e quem sabe assim negar seus instintos. Foi o Garcia descobrir e lá foi a miseravinha para a onça, e a onça não comeu, nem na hora nem depois. Acabaram as duas mortas da Silva, ou melhor, mortas da D'ávila, porque na Casa da Torre, tinha bicho que nunca perdia a fome, nem que para isso pessoas tivessem de morrer.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

No tabuleiro da Bahia

De volta ao sul 40 graus sem mar e ar, não me resta muito o que fazer além de enxugar as lágrimas e colocar a casa em ordem. Desarrumar as malas foi moleza. Não eram malas mesmo. O senhor bípede levou a malinha que usa nas viagens de trabalho, e o meu pequeno e eu repartimos a dele, a bolsa vermelha e forte, não forte e feia. Arrumar foi um pouco difícil.Desarrumar foi como tirar doce de criança. Restou só o choro e um bocado de areia, porque estamos os três mais para lá do que para cá, chorosos, cantarolando ai, ai que saudades eu tenho da Bahia. O pequeno, por ser de fato pequeno, abriu o bocão e esmurrou o lençol branquinho da cama arrumada pela camareira Júlia na hora de vir embora. O grande fingiu que não viu, nunca é com ele, e essa criatura, eu, sendo mãe, filha de Oxun, adoradora da cor solar, fez o que sabe fazer: consolou o pequeno, o que não deixa de ser consolar a si mesma, porque se ele há de voltar à Bahia, ela há de ir também. Aí, suspiramos adeus aos coqueiros, aos baianos, às águas flutuantes de afeto e alegria e fomos para o aeroporto fazendo planos. Os meus mirabolantes, estilo rede Glogo, pensando em arranjar uma noiva baiana para o meu filhote, uma filha de Carlinhos Brown. Os do senhor bípede mais plausíveis, que ele é mais feijão que eu, o seu modesto sonho, de uma próxima vez ir a Trancoso; e o pequeno, o pequeno veio em silêncio, contando as fitinhas coloridas do senhor do Bom Fim como quem reconta as estrelas do último luminoso céu que viu.

Mãe baianinha



Uma lata de tinta caiu sobre a Bahia. No rótulo, lia-se o nome Encontro entre o Céu e o Mar. Nas letras miúdas, variáveis de arco-íris explicavam que o produto era à prova de antídoto e sem data de validade, imortal.A bípede e seus bípedes pousaram sobre o chão da Bahia; do chão fluturam para a água, d'água para uma nova mãe. A Bahia, às vezes esplêndida, às vezes miseravinha, abriu os braços e de sua pele macia escaparam os perfumes, os calores e as sombras multicolores do amor.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Burra burrinha burralda


Oh, dor! Fui remover do Outros Bípedes um blog que saiu do ar e removi todos. E agora tenho de terminar a mala, que de tão pequena tem de ficar smart :(

Você já foi à Bahia?


Eu não. Mas vou em breve, logo. Amanhã! No voo das 10. E passo a semana com o pequeno e o grande bípede sem lenço, alguns documentos e, é claro, com o computador . Uma noite a gente fica em Salvador; as restantes, na Praia do Forte. Diz o senhor bípede que a temporada há de clarear as ideias, melhorar o meu gingado. Diz um amigo que não volto, e, se volto, volto Caymi, pensando na jangada perdida no mar. Enquanto esse sol não acontece, fico esperando o clarão de outros blogs. Depois também, que a minha chama só é eterna enquanto dura. Eu sigo inclinada ao Mínimo Ajuste para o novo blog. Bom no nome e na natureza. Talvez, porque além de sonoro, me agrade o fato de não precisar girar chaves de fenda, coisa que quase não tenho e nem sei como usar.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Sugestões da família Bípede

Meu pequeno nos manda:
Oh, My Blog!

E o senhor bípede, depois de ter colocado pimenta nos olhos junto com as lentes de contato, manda:
Pimenta nos Olhos.

Mais nomes para o blog

Mais sugestões:

Pepino Desbocado
Santa Estupidez
Cacoete Mágico
Bafo de Colibri
Bochechas Ousadas

Vieram todas da mesma pessoa e admito que ri muito com elas.

Mais nomes para o blog

Mais sugestões chegaram. Dessa lista, gosto bastante do Expresso do Ocidente. Vão olhando e opinando. Os nomes da anterior continuam valendo. Também, sigo gostando muito do Mínimo Ajuste.

Blog Esfera
Passageiro da chuva
Passaporte húngaro
Passaporte Livre
Código 46
Código Aberto
Trem Noturno
Trem pra Lisboa
Acesso Irrestrito
Expresso do Ocidente
Trilhas Urbanas
Sem Fronteiras
Além das Fronteiras
Sem Destino
Sem Fuso Horário
Transatlântico

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Nomes para o blog

Primeiras sugestões:

Just in Time
Porta Aberta
Blog Adentro
Polegar Opositor
Mínimo Ajuste
Mínimo de Ajuste
Pergunte ao Blog

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

J.D. Salinger

Que sorte não ser apanhado em um campo aberto e morrer aos 91 anos de causas naturais.

Frases

Do filme que o pequeno bípede está assistindo na TV: "A resposta sempre será sim a não ser que seja não."
" Vou com um pique de menina e um sorriso no rosto." " Sou velha demais para morrer." " Achou água? Não, só diamantes e ouro." " E vai funcionar? Não. Sim. Quer dizer: meio a meio."

Cão sem pulgas


O presidente tem bronquite e fuma cigarrilhas. Os caminhões e as escavadeiras na praia eram para o enterro de uma baleia, dezessete metros, morta de morte natural. A associação presidente baleia não tem explicação. A não ser que a gente pense em mar e em excesso de peso. A gente pensa no mar e nos excessos de peso. A gente caminha, quem pode corre, para manter a forma. Como cada macaco tem suas manias, a minha é de contar os passos no calçadão, tipo assim, cento e sessenta e seis, cento e sessenta e sete, cento e sessenta e oito. A meta é chegar a oito mil por dia. Número lido em um livro japonês. Eis a razão de tão longa vida. Quantos dou, não faço ideia. A mania é uma mania preguiçosa e, quando chego lá pelos trezentos, a conta se perde. Podia comprar um relógio contador para saber o número certo, mas aí a minha neurose, pufff, ia embora e que graça caminhar teria?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Pensando em voz alta


Pensando com o meu teclado, que escreve torto por linhas certas, fui lá conferir a dica do Maia. O blog é feito de editores independentes. Cada um escreve o que quer, embora exista uma linha editorial. Eu não gosto de linhas que limitam. Aí, me revolto e viro o próprio Edward mãos de tesouras. Então, se é para criar um blog coletivo, ele não pode estar cercado por esse ou aquele assunto. Mas como dizem na minha terra, também, não pode estar solto a campo para o acampamento fazer fogo e fogueira. O jeito é ter bom senso e distribuir as senhas, sugestão do Cheguei tarde (antes tarde do que nunca) e deixar a terra rodar. Como medida de segurança, que Inês é morta, uma exigência, só as recebe quem for dono de um tasco. Anônimos ou perdidos na relva, sorry, mas acho que não se encaixam. Sobre a língua portuguesa, tenho minhas dúvidas. Conheço bons blogs falantes de outras línguas e, ao contrário do Caetano, não acho que minha língua é minha pátria. Sobre que nome dar, as sugestões estão abertas. Podia abrir um concurso, organizado pelo Sacana, que é bom em matar touros e chamar a Jacklyn, que já venceu um, mas aí a busca pelo ponto de partida acabaria demorando mais que a encomenda. Pressa não há. Sei lá. Há?

Em busca do ponto de partida


E eu, aqui, no meio do dia, fingindo que hoje é sábado e que nenhum concurso me espera. Eu, aqui, colocando a cachola para funcionar porque a coçeira não passa, e, agora, feito criança pequena, quero porque quero um blog para todos sobre o tudo ou o nada, família Benetton, Silva ou Seinfeld, de gente normal e a-normal, pintado e escrito a quatro, oito, sessenta e quatro mãos. E eu, aqui, em busca do ponto de partida, ouvindo samba, esperando a hora de gritar terra à vista, de abrir o champagne e ouvir os tim tins da blogosfera vindos de outras coloridas mãos.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Na verdade


As tardes nunca são demais para depositar os olhos sobre as outras gavinhas do planeta.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Fértil


A lista está crescendo. Feito guarda noturno tem de fazer a ronda, caminhar por outros blogues, soar o apito. A lista, na contramão do tempo, ultrapassa os desencontros, vislumbra os semelhantes, toca os dedos finos da esperança. A esperança já não tão magra ganha novos contornos, aprende a voar com borboletas, pousa em solo seco de gente fértil. A lista está grávida, terna, deixando crescer no peito e na mente novas pulsações e expectativas de humanidade e da humanidade que podemos ter. A lista passa pelos meus dedos, seus dedos, e oferece uma nova família, novos posts, um novo ter. A lista reúne os bons sacanas e o efeito de suas borboletas. A lista não perde a devida comédia, não esqueçe de perguntar por que você faz ou não faz, mesmo sendo terráqueo, mesmo não tendo mais cerimônias, sendo dono de um pé de meia, um aeronauta com vida além de marte, da morte,e em Marta. A lista é para quem não dispensa a conversa, o papo, a crítica. A lista é para aqueles que seguem adiante na cara e na coragem, em rosa ou azul, mesmo quando o aviso diz: não leia.

Interrogações


E a minha lagarta que nunca se transforma em borboleta, que segue preguiçosa e muda em sua metamorfose desumana, morosa em sua bondade primitiva, em suas lágrimas passageiras, inútil sem ser obra de arte? E a minha lagarta que se contorce para escapar das memórias da morte e do tecido áspero do luto, o parceiro de dedos agressivos e escorregadios feito as garras da natureza e de seu próprio desamor?

domingo, 24 de janeiro de 2010

Heróis dos anos 80

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Trama


E este acordo mal feito e secreto entre a cabeça e o corpo que adia o descanso e ordena ao sono que fique calado em um canto, acuado e em dúvida a quem se dirigir para pedir licença, que a hora é sua e é agora, porque amanhã, ele não sabe em que horário estará disponível nem se será bem-vindo, porque, além de irregular, ele também sofre de absoluta falta de senso de adequação e, quando pensa que está agradando, recebe na face uma xícara e depois um balde de chá fervendo.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Tagarelices


O tempo na doce praia está cooperando com os estudos. Está perfeitamente viável passar quatro horas, ou um pouco mais, sentadinha de caneta na mão. Eu sou uma criatura que escreve enquanto aprende. Por experiência própria, recomeçei o desafio colocando bandaids nos dedos. O ringue e o adversário estouraram minha mão direita na última luta. Então, agora, venho arrumada a caráter. No mais, today, perdi a vontade de cozinhar. Na verdade, o pequeno bípede e eu não fomos ao supermercado, e sem igredientes, a missão é impossível. Fomos jogar minigolfe, outra missão quase sem chances. Se a motricidade dele não é o bicho, não preciso nem perguntar de onde vem. Se bem que ambos temos boa mão para desenhar. Vá explicar essas incoerência da natureza. Agora, vamos dar uma volta no clube. Estou no meu intervalo prolongado. Volto para as leis à noite, onde todos os gatos são pardos, e os meus olhos de morcega não precisam ver para crer.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Nas estrelas


Eu não queria me exibir. Sou uma criaturinha modesta. Tenho horror a gente show off. Mas eu estou vendo estrelinhas. Ontem, fiz um frango desfiado com molho de tomate tão bom quanto os que o senhor bípede faz, e, hoje, fiz uma picanha assada no forno, do cristo comer de joelhos, agradecendo aos céus por ser carnívoro. Viva!!!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Bípede, myself and I


Não faço parte de um reino. Meu maior título é de caipira vinda do interior. Tenho um pouquinho de estudo, com direito a pós-graduação e blablablás. Voto sempre. Estudei em escola pública, e, pasmem, fui mais do que feliz. Defendo-me bem em english, please. Não casei virgem como papai e mamãe queriam. Desastradamente, nasci sob o signo de câncer, o que me faz ser assim este ser sentimental. Maternal. Fraternal. Infernal. Sou organizada. Na verdade, obssessiva. Faço análise há uma década. Tenho um filho. Poderia ter dois. O que há de se fazer? Tenho um marido quatro estações. Começamos pelo inverno. Houve chuvas e trovoadas. Depois, o outono tratou de varrer as águas contaminadas. Tudo indica que lá vem o sol, ou quem sabe as flores. Meu nariz alérgico vem farejando alegrias, o nome das rosas. Qualquer hora, começo a colhê-las, de olho nos espinhos, que Inês já está morta, bem longe, lá em Portugal.

De novo

Ainda não recomeçou o zum zum zum do meu concurso, e, mesmo assim, decidi me encarnar. Recomeçei, ontem, junto com o pessoal que se prepara para o TRF, a estudar mais que três horas. Eles lá, eu aqui na praia, sentada com vista para o mar. Quem me conhece de outros carnavais, sabe que o meu foco é o TRE e que estudo melhor by myself, não importa em que lugar esteja. Quem me conhece sabe também que não tenho vocação para política, porém, tenho gosto pelo processo que a envolve, tenho gosto e esperança, fé, sei lá como se chama de que um dia a maré há de mudar, transformando o que hoje é areia em ética. As minhas chances, como sempre, são limitadas. Limitadas pelos meus pobre neurônios e, infelizmente, pelas fraudes. Quem me conhece um pouco sabe que já fiz esse concurso, que me classifiquei nem que fosse para ir para Itaqui, e que ele foi anulado devido as costumeiras falcatruas dessa terra abençoada, dizem que por deus. Na época, chorei. Não sou chorosa. Na verdade, irritam-me lágrimas sem dor. As de crocodilo, então, dispensam comentários. Mas tenho de admitir: as minhas foram tão sinceras.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Amélia é que era mulher de verdade

No terceiro andar, veraneia uma médica alta e loira, dona de um corpo escultural. No terceiro andar houve uma repentina separação. A doméstica da família assumiu o controle da casa, demitindo a patroa. A demissão foi sumária. O patrão foi promovido e, devido a seu bom comportamento, pode, a partir deste verão, usufruir dos benefícios de cama, mesa e banho da substituta e de graça. O zelador do prédio está encarregado de divulgar a notícia. Todos os outros onze andares do prédio têm algum comentário a fazer. Para o veranista do quinta andar, a demissão pode estar relacionada a falha da médica. Diz ele: a culpa é dela, devia ser uma mulher muito chata. Já o zelador, do alto de seu um metro e sessenta, vai direto ao ponto: isso estava previsto, ela não sabe fazer nada, nem cozinha ou esfrega o chão.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Mulherzinha, eu?


O amor é o lugar onde os fracos não têm vez.

Areias da inveja


Na fila do caixa, mãe e filha conversam animadas. Sem pressa, colocam as compras sobre a esteira. Caixas de leite, panetones, geleias de uva, um monte de delícias a serem compartilhadas enquanto veraneiam. A filha se parece comigo. A mãe se parece com a que eu tinha, até mesmo as unhas estão pintadas de vermelho. Minha primeira impressão é de prazer. A segunda derrama sobre a minha solidão de filha um balde de raiva. Sinto raiva por não ter mãe.
Na barraca ao lado, um avô brinca com um menino. Animados, constroem uma muralha de areia para quando a água chegar. A maré está nervosa. Aos poucos, vem roubando os chinelos dos banhistas distraídos. O pequeno não se parece com o meu filho, mas é um menino. O avô se parece com o pai que eu conhecia, um pai inimigo de outras vozes e brincadeiras, um pai e avô diferente desse outro velho também magro e grisalho, sem músculos, mas que é espumado feito as ondas e que exibe, no sorriso, um calor que nunca recebi na infância.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Our way


Porque a gente vai blogueando cada um de seu jeito, em our way, your way, my way, para ser gente e não personagem dessa ou daquela história, o meu, o seu, o nosso, o de quase todos, velho Frank.

Porque eu também gosto de vocês

Uma foto

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Personagem coadjuvante


O senhor bípede não gosta de ser coadjuvante. Ele tem de ser protagonista, nem que seja o cavaleiro da triste figura, se bem que ele está mais para Sancho Pança.

Avatar, o filme


Porque o senhor bípede, de braços na cintura, enrolado na toalha azul, balançando o corpo para lá e para cá, reclama que nem comentei nada sobre o filme Avatar, aqui vai o comentário: perfeito para 12 anos, idade sugerida nos cinemas brazucas. Tá bom?

Clube Samovar


Porque eu estou em um estado de nervos a la Almodovar, porque o senhor bípede do alto do seu sorriso está a rir de mim e de si mesmo, porque ele se ri a toa e acha que eu sou uma "tadinha" enjoada e enjoiada, que adora coisas inúteis, como o Bono, o bono cão que não serve para nada, uma obra de arte na minha vida, e porque a minha Maricota acaba de se descobrir uma criatura dos chás, bem-vinda ao mundo samovar, este post "bem legaus" for two e quem mais gostar.

Muda


Antes, eu estava sem voz; agora, estou sem palavras.

Porque o Haiti somos nós


" Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

John Donne

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Na bolha


De dentro da bolha, vê a paisagem passar e passar em uma repetição línear embora redonda. De dentro da bolha, quase enxerga o plástico da embalagem, os limites do pacote, o bisbilhoteiro atrás da porta, funcionário privado do show de Truman. De dentro da bolha, tenta transformar o beco sem saída em um ponto de partida, move os pés e as mãos e se debate na água, no ar, acordada, dormindo. De dentro da bolha, a criatura não escapa. O giro invariavelmente completa os 360 graus. Pode acelerar o passo. Retardar o ritmo. Estacionar. Estancar. Emburrecer. Endurecer. E nada. A bolha não é uma placenta. A bolha não faz parte de um corpo. A bolha nao tem instinto, nem o assassino.

Vaga de calor


A vaga de calor me abafa. Fecha o humor do mesmo modo que bloqueia a minha garganta ferida. Tenho e não tenho vontade de falar. Tenho e não tenha ideias. Percorre o corpo, um sangue coagulado em um pesadelo banho maria, daqueles que vai machucando os sentimentos sem pressa, resgatando, com as bolhas, as desastradas memórias que deveriam estar perdidas.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Depois da praia


Estou de volta a Porto Alegre 40 graus. O detalhe relevante é que estou afônica. Muda. Completamente. Quando abro a boca, sai um guincho suíno que me faz parecer uma leitoa cor de rosa. Então, tenho de calar a minha bipedice à força e ouvir disparates sem poder dar um pitaco, e eu gosto de opinar. E ontem na praia, sob a sombra, porque o sol poderia piorar a minha garganta, as pessoas falavam sobre quem seria o Uraguai, porque tinha caído na prova de literatura da UFRGS e a filha de alguém tinha errado a questão, e uns diziam que era um escritor moderníssimo, do Uruguai e blablablás, e eu tinha vontade de me rasgar de raiva e gritar para todos que ele não era um autor e, sim, um poema, um épico, em versos decassílabos brancos, sem rima, escrito pelo Basílio, não o primo da Luísa, o da Gama, que, pelo que eu saiba também não tinha nenhum parentesco com o Vasco, e que o tema era a batalha travada entre os portugueses e os índios da região da minha bisa, aquela caçada a cachorro e cavalo, de nome indígena desconhecido, mas que poderia muito bem ser Ra. Porque se a gente minha realmente vem do sangue dela, algum santo padre jesuísta pode, perfeitamente, ter dito, bah, como essa Ra buzina.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Saravá

Porque eu estou em um momento saravá, queimando a pele e incendiando as ideias, vem bem uma samba da benção.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Lá fora está chovendo


E eu ando a ver a novela porque o dvd segue no tal ponto eletrônico à espera de uma solução, e a novela é chata, e a Helena, um porre, e nem as belas casas são mais belas, a casa da tal personagem só não é rosa porque é movida a lilás, até o pinheirinho de Natal é lilás, e eu não gosto de lilás, e bem pouco de rosa, porque a minha mãe do alto de sua beleza, meteu na minha cachola que rosa é para loiras, e eu não serei blonde nem quando ficar velha, que, macacos me mordam se eu ficar feito a Hebe Camargo ou passar a achar rosa lindo. E estou vendo a novela porque nesse edifício não tem antena coletiva, e a gente não tem sky, nem net, nem nada que passe um filmizinho, porque se a Globo é a Globo e adora uma novela, na concorrência, uma apresentadora bem Hebe, sem ser a Hebe, fazia três casais humildes revelarem sua falta de auto-estima e brigarem diante de uma platéia sanguínea. E eu prefiro ficção de má qualidade a uma suposta realidade sendo desqualificada e destruída por uma manipuladora qualquer. Que se tem um tipo de gente que me irrita, é o tipo manipulador e chantagista, e eu tenho pós-doutorado nesse tipo, e não tem mais quem me pegue, que meu radar aciona bip bip bip já na primeira frase. E eu estou vendo novela porque, durante o dia, sigo lendo revistas, jornais e internet, e, é claro, um livro, e, no momento, leio o presente que ganhei do Paulo, Os limites do Impossível, e o livro é incrivelmente bem escrito, mas incrivelmente irritante, e se desenvolve em torno das possívei mulheres que cercaram o nascimento de Carlos Gardel lá em Tacuarembó e em torno de um homem filho de uma putana com todas as estrelinhas da galáxia, um tipo safado, danado, podre, que faz o Herivelto da Dalva até parecer um anjinho, e essa história de machos fodedores não cola mais, e, se eu tivesse de cometer um assassinato, o meu, certamente, seria bem básico, nada russo, que eu trataria é de envenenar com muitos sorrisos e depois um chá o primeiro maridinho metido a bacana que encontrasse enquanto cuido o pequeno bípede no mar e ainda iria no velório vestida de preto, que para matar já não seria mais necessário. Se bem que um azul clarinho realça mais a minha pele, e a Iemanjá iria gostar, não iria?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Durante o jantar


Mãe, a Dalva e o Herivelto existiram?
Sim. Claro, eram artistas, respondo.
E eles eram mesmo assim?
Não, são atores, caracterizados para parecerem com eles.
Não, mãe, na personalidade. O Herivelto era danado, né?
É...
Mãe, não gostei da comida, quer dizer, o franguinho tá uma delicia.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Sei lá

Do pequeno bípede:
- Mãe, você tá vendo a novela por que ama viver a vida?


Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída.
Como é, por exemplo, que dá pra entender:
A gente mal nasce, começa a morrer.
Depois da chegada vem sempre a partida,
Porque não há nada sem separação.
Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão.
Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão.
Niguém nunca sabe que males se apronta.
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe,
E o sol que desponta tem que anoitecer.
De nada adianta ficar-se de fora.
A hora do sim é o descuido do não.
Sei lá, sei lá, eu só sei que é preciso paixão.
Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão. Sei lá. Sei lá. Sei lá. Sei não.

Pobrezinho

O pequeno bípede e eu estamos na praia. O senhor bípede pegou a estrada e foi trabalhar. Depois de amanhã, minha amiga de berçário vem com seus bipedezinhos passar o final de semana conosco. Na segunda-feira, voltamos todos para a cidade. Como aqui em casa quem cozinha e muito bem é o meu prezado marido quatro estações, forno e fogão, hoje, preparei o jantar. E me esforçei. Não é necessário dizer que a culinária estancou no macarrão al sugo. Quem me dera preparar um bom feijão com arroz. O pequeno comeu. De novo, quis me agradar. No ano passado, com o mesmo sorrisinho amarelo, enfrentou o verão dessa mama ruim de avental sem uma única reclamação. Estóico, suportou a falta de sabor. Ele sabe que faço com carinho, mas, sinceramente, vendo o pobrezinho, dá até dó.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Mais Imre Kertész


" O moderno não é estilo da juventude, mas da velhice. Não é, pois, um início, mas uma concretização. "

" Nunca pude identificar-me com a minha situação, com a minha vida real - e, aqui, uma vez mais, podemos acrescentar um grande ponto de interrogação depois da palavra real, porquanto o fato de me considerar outro, logo, a minha imaginação, e também a minha criatividade, tudo isso era real, mais real do que o real, pois, afinal, igualmente criava uma realidade."

" Ela foi-se embora, e levou consigo a maior parte da minha vida, o tempo em que a minha obra se inaugurou e acabou, e esse em que, vivendo um casamento tão infeliz, nos amámos tanto. O nosso amor era como uma criança surda-muda que corre, rosto risonho e braços estendidos, mas rosto que se torce lentamente num soluço, porque ninguém a compreende, e porque não desencanta uma finalidade para a sua corrida. Apercebo-me, e esta certeza quase me dá vertigens, de que, num só instante, o passado pode, efetivamente, tornar-se o que lhe chamam: passado, receptáculo de velhas coisas, impressões, vozes e imagens que abandonaram por completo as fontes vivas da vida que lhes deu o ser e as manteve intactas durante um tempo. A minha história soltou-se de mim, de súbito, perco o equilíbrio, como alguém que se sente perdido, e, entre o passado e o futuro, desliza para fora do tempo."

No blog Não Leia, do escritor Mayrant Gallo, há um post para ajudar essa humilde bipedezinha em sua aventura húngara. O post é uma aula breve, porém intensa, sobre os incríveis escritores húngaros. Recomendo com muitas estrelinhas!!!

E o Egito continua

Porque nem todas as notícias vêm com cara de sexta-feira 13, hoje, encontrei esta sobre o Egito. E eu adoro o Egito, apesar de ter sido, razoavelmente, mal tratada por lá. Do site do terra:

"Uma equipe de arqueólogos egípcios descobriu dois túmulo construídos há 2.500 anos, os mais antigos encontrados até o momento no sítio arqueológico de Saqara, a 25 quilômetros ao sul do Cairo.
Os mausoléus estão enterrados e têm gravuras em vários de seus muros, segundo detalha uma nota do Conselho Supremo de Antiguidades (CSA), divulgada hoje. Uma das duas construções é a de maior dimensão encontrada na região e inclui inúmeros corredores, quartos e salas, explicou Zahi Hawas, secretário-geral do CSA.
Este túmulo é precedido por duas grandes fachadas, parte em deterioração e outra de tijolo, conforme o comunicado. Dois dos quartos que estão lotados de material de construção e de terra conduzem a uma sala em que no interior foram localizadas diversas ossadas e vasilhas de cerâmica.
Em outra sala pequena foi descoberto um poço com uma profundidade de sete metros. Na parte norte do túmulo também foram encontradas várias múmias de falcões que estão em um bom estado de conservação. Conforme Hawas, o túmulo foi utilizado em mais de uma ocasião e provavelmente depredado no século V depois de Cristo.
Na segunda sepultura, de menores dimensões, embora também composta por várias salas, foram encontradas inúmeras vasilhas de cerâmica. O especialista em arqueologia revelou sua satisfação com as descobertas, uma prova que a região de Saqara, onde fica a pirâmide escalonada de Zoser, ainda guarda muitos segredos. "

sábado, 2 de janeiro de 2010

Ao entardecer

Finalmente, resolveu oxigenar, ou seja, na linguagem do senhor bípede, dormir. Dormiu pouco e mal, deitada na rede, coisa que nem o sangue índio ensina. O sono não deve ter durado mais que uns quarenta minutos, mas, feito o cristo do Rio, mostrou-se redentor. Depois de ter corrido sob um sol de assar pizza e de ter ficado com os amigos na praia até as três da tarde, era o que merecia. Não sem antes lavar a louça do almoço e dar uma ajeitada na casa, que a pobrezinha é obssessiva, criada com complexo de faxineira, o que, apesar dos pesares, acabou se revelando melhor do que se fosse de Branca de Neve. Tinha tudo e mais um tanto para se espelhar no espelho vaidoso da rainha mãe, não má, equivocada. Ela, sim, respirava estética. Talvez, tenha morrido ainda bela para não ter de enfrentar a metamorfose do corpo; é claro, que outras razões também contam. A gente é que prefere ficar em silêncio, reservando alguns segredos para os ouvidos de concha desse atlântico mar.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Primeiro dia


No primeiro dia do ano, um som nordeste avisa na janela para eu não me afastar do edifício dos ventos uivantes. Com algumas nuvens, disputa o cargo de chato maior. O mar está azul. Há dias em que se apresenta cinza ou marrom feito o meu humor. O senhor bípede está lá fora correndo. É um homem quatro estações. Tem o dom de encantar-se com todas as variáveis da natureza. Eu estou com o corpo um pouco dolorido. Além de acompanhá-lo na corrida de ontem, há uma ressaquinha. Nada de mais que não sou dada a exageros, mas contam também as poucas horas de sono. Fora isso, aceitei o desafio dos meninos em um campeonato de Wii. Ganhei no tênis de mesa. Mas levei um banho em todos os outros esportes, principalmente, na disputa de bicicleta em que a gente pedala com os braços, uma coisa de enlouquecer e de doer. Meu ombro direito que o diga. Na hora, quem fala mais alto é o orgulho e, quando escuto a frase: eu é que não vou perder para uma velha bem moça, dou tudo de mim. Perco, mas com dignidade, que ninguém precisa perder sentindo-se ruim.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010


Ufa! A verdade é que é um alívio ver 2009 partir.

Herman Melville

Nada irrita mais uma pessoa honesta do que a resistência passiva. Se o indivíduo ao qual se resiste não for desumano, e o que resiste, inofensivo, então o primeiro com a maior boa vontade, vai se empenhar para que sua imaginação construa com caridade aquilo que foi impossível resolver com a razão.

Mundo bípede


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