quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Eu não gosto de você


Lamento não gostar de você.
Verdade. 
Não gostar de você me entristece, me tira o sono, remove um torrão do continente que também sou. 
Remove agora em pleno século 21 como removia também naqueles que tinham o coração fértil no século 16.
Nenhum homem é um ilha não é um poema, sabia?
Sei que é divulgado e vendido como se fosse. 
Mas nenhum homem é uma ilha é um trecho de uma das meditações, de John Donne, uma das mais profundas e inspiradoras que conheço.
A frase "Talvez aquele para quem esse sino soa possa estar tão enfermo quanto aquele que sabe que o sino não está tocando para ele" abre o texto.
Certamente vem daí o título do livro Por quem os sinos dobram, escrito pelo Hemingway no século 20.
Se você lesse mais, se você se humanizasse mais, você saberia do que estou falando.
É provável que não saiba. 
É provável que não leia livros e  pessoas. Os seus olhos devem estar voltados para a ponta empinada do seu nariz.
A humanidade é a nossa capacidade tradutora mais competente.
É preciso ser pessoa para ser pessoa.
É preciso rendar o corpo com alma para fazer parte de um tecido maior.
Mas você se acha tão imenso que não vê o quanto é pequeno.
Você humilha um faxineiro, um porteiro, um zelador. Você humilha os filhos dessas pessoas.
Você pensa que um empregado é um mal necessário.
Você é um mal.
O mal vem da sua arrogância, do seu desprezo, da sua necessidade de ostentar e de magoar.
Eu não gosto de você.
E lamento não gostar de você.
Verdade.

Ilustração: tela de  Alexander Kosnichev



domingo, 7 de dezembro de 2014

Deveria começar com um boa noite

Deveria começar com um boa noite, mas já  é dia. Deixei, como você gosta, uma das janelas abertas para ventilar o quarto e apagar-me mais rápido. Sabia desde o início que seria em vão. Soube no momento em que tirei a colcha e ergui o lençol. A cama estava grande, imensa, infinita sem a sua presença. Por uns minutos, fiquei em pé decidindo em que lado me deitar. O lado esquerdo é seu. O outro me pertence por direito. Então, ajeitei os travesseiros, os macios e os meus bem no meio, e decidi reler o Memórias do subsolo. Ontem pela manhã, eu tinha relido o Noites Brancas. Lembra que te falei vou reler meus Dostoiévski? Você ficou um pouco espantado quando comentei sobre minha fase russa. Talvez tenha te parecido um exagero ler dezoito livros de um mesmo autor como se fossem peças de um dominó. Li as novelas e os romances como você lê os contos, do Tchecov: apaixonada. Li como leio e releio também os seus e a ti: você minha literatura andando pela casa e por mim em carne, voz e afeto. Não deveria, eu sei, passar a madrugada acordada. Desperta tem de ser a dois bem como o Russian Caravan que você me trouxe e que tomo sozinha enquanto te escrevo, tentando me convencer que ainda que não seja a mesma coisa, é sempre melhor uma xícara de chá que nada.

Para Luiz Ruffato

https://www.youtube.com/watch?v=q7JEUetg8lE

De Dostoiévski

Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio, e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas no gênero. E acontece até o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui.

Embora tenha afirmado, no início, que a consciência, a meu ver é a maior infelicidade para o homem, sei que ele a ama e não a trocará por nenhuma outra satisfação.

Talvez o homem não ame apenas a prosperidade? Talvez ele ame, na mesma proporção, o sofrimento? Talvez o sofrimento lhe seja exatamente tão vantajoso como a prosperidade?

Admitamos que o homem não seja estúpido. (Realmente não se pode, de modo algum, dizer isso a seu respeito, pois, se for estúpido, quem será inteligente então?) Mas, ainda que não seja estúpido, é monstruosamente ingrato! É ingrato numa escala fenomenal. Penso até que a melhor definição do homem seja: um bípede ingrato.

sábado, 29 de novembro de 2014

Em branco

Em branco, descansa. Acalenta a linguagem e um corpo infinito. Em branco, respira devagar, e o silêncio a admira e improvisa. Equação pacífica entre travesseiros e livros, vida e morte entre santos e humanos suicidas. E assim se achegam os tons e as carícias. E assim se encontram os lábios e o amor violento e reconhecido. Em branco, embarca, inunda e fala sem dor.

https://www.youtube.com/watch?v=5MjcNkh4zws

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Voo de pássaro

Pousa o seu voo de pássaro
sobre as minhas asas inquietas.
Une com a sua umidade
as partes bifurcadas
pela lâmina desassombrada.
Deseja-me.
Cobiça-me para que a
minha respiração se transforme
em verbo
e conjugue em afeto
os tormentos que se escondem
sobre mim.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Das solidão I

O silêncio percorre as palavras. E, infatigável, suporta as repetições, testemunha os sentidos, transfigura o corpo, o olhar, os nomes. O silêncio encobre as feridas, hipnotiza as mentiras, apronta as entregas. O silêncio viaja de saliva em saliva,
de riso em riso, atravessa os meses, os anos, os pares e os ímpares. O silêncio suspira, geme, agoniza. O silêncio procura presenças, carícias, traduções.

https://www.youtube.com/watch?v=Y-U3c6uRZBM



Cenas da vida


Desce a rua com o filho. Ele uns quarenta e cinco anos. O menino, uns doze, com braços finos, pernas tortas, passos tortos. Os dois unidos por sorrisos,  mãos e coração.

Desce a escada, sorrindo. Cinco ou seis anos. Cabelos barrocos. Olhos pacíficos. Caminha até a mãe com a criança no colo e pergunta: o que ele tem? Ele está só um pouco chateado. Ela então abre a mochila, pega um band aid, coloca sobre as costas do menino e diz ele logo vai ficar bem.




segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Processo_Livro O amor encontrado_de Luiz Ruffato




domingo, 23 de novembro de 2014

Cazuza vai começar a cantar agora. Por favor, não façam barulho no ambiente! Muito obrigada



sábado, 22 de novembro de 2014

De pernas pro ar



O amor encontrado - de Luiz Ruffato

De Luiz Ruffato



sexta-feira, 21 de novembro de 2014

No espetáculo de sua própria humilhação

No espetáculo de sua própria humilhação, tem gente que não resiste às subversões da frustração, da inveja, da raiva e que não se dá conta do quanto suas fraquezas, entre outras ordens, são de ordem também psíquica.
Gente que acredita piamente em si mesma, santificando o próprio pensamento como se ele fosse algo imortal e divino.
Gente que tudo viu, de tudo entende, sobre tudo opina.
Gente que mais critica do que produz.
Gente que se enforca, registrando palavra por palavra sua falta de lucidez e de controle.
Gente que se desdobra em falácias, tentando provar por a+b+c que o trabalho alheio é ruim, o ser alheio é ruim, as pessoas que admiram o ser alheio e seu trabalho são ruins e tudo o mais nessa lógica desmedida.
Gente que faria Sócrates levantar do túmulo.
Gente tão arruinada quanto loquaz.
Gente metida a deus e a besta.
Mais metida a deus que a besta. Nem sei...

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

E bem, e o resto?

O resto está para além das páginas, para além do último capítulo.
Quem leu o livro de quem roubei o título para este post, sabe de quem falo sem ter de recorrer ao óbvio, às mesmas referências já desgastadas de tanto ulularem de boca em boca.
Bocas repetitivas.
Bocas cansativas.
E bem, e o resto?
O resto está a saber e a meu critério e a seu critério.
O resto vem cifrado e escancarado, vem dentro da imaginação, da visão de mundo  e das inteligências de cada um. 
Quantas formas de inteligência mesmo Howard Gardner elencou?
O ideal é ter um pouco da cada uma. Dividi-las na democracia irreverente e ambígua de nossos cérebros.
O meu cérebro é um mosaico republicano. 
E meu mosaico troca as peças e as cores de lugar e troca de peças e de cores sem considerar "tendências de mercado" seja ele mundano ou abstrato.
O meu cérebro não deixa que minha alma, por mais lacerada que tenha sido fique aí para um canto como uma flor lívida e solitária em um vaso e em um jardim.
Meu cérebro faz recusas.
Não aceita mais gêneros, adjetivos e corrupções. 
E minha alma não está em meus olhos.
Menos ainda nos pares de óculos que uso para dizer ao sol que ele às vezes é um exagero.
Minha alma está no antes e no resto.
Está dentro do lado de dentro e de fora do lado de fora. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Da série brincando de fotógrafa


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Natureza morta

Assim, às lascas, com a faca afiada, de pé em frente à pia, vai alimentado o tempo, organizando o almoço e acalmando as ideias. As batatas das pernas exauridas pela corrida matinal, os dedos finos das mãos ágeis a descascar beterrabas, cenouras, berinjelas, cebolas. Os cães no entorno, sacudindo os tocos das caudas à espera de que um pedaço role para fora da tábua e de fora da tábua para o assoalho antes que ela seja capaz de conter uma primeira queda. Do chão não passa, costuma dizer quando algo lhe foge. E diz com gosto, sem pressa, decapitando em sílabas as palavras, ouvindo as letras se diluírem como se fossem também natureza morta. Quem sabe, como se fossem quadros líquidos, os legumes deem vida aos pratos de sopa com a mesma intensidade que as frutas dão cor aos sucos? Ela sabe: é preciso ferver a água, engrossar o caldo e usar a colher de pau para não arranhar a panela; é preciso zelo para não voltar a queimar o pano de prato e a pele magoada de seus braços ora marcados pelas distrações do amor, ora marcados pelas distrações da dor. Cedo ou tarde, mesmo isolado no quarto dos fundos, manhã após manhã, ele acabará desligando o computador, a preguiça e a indiferença para seguir o rastro que se espalha, embriagando, de silêncio e desejo, as paredes, os corredores e o espírito faminto de afeto que escapa por entre os aromas do corpo dela.

sábado, 15 de novembro de 2014

Da série Caminhos

Antes de ir dormir, percorre a casa. Fecha janelas e cortinas. Coloca almofadas no lugar. Guarda livros. Diz boa noite às plantas, aos quadros, ao lar.
Antes de ir dormir, percorre os tapetes, os enfeites, os porta-retratos. Sorri para o pai, para a mãe, para as terras em que sua terra estará sempre viva.
Antes de ir dormir, percorre-se.
Pede aos maus momentos que partam. Pede ao coração que se acalente. E pede ao descanso que lhe conceda verdade e sabedoria.

De dar nos nervos

Conto publicado na São Paulo Review




http://saopauloreview.com.br/2014/11/04/de-dar-nos-nervos-conto-de-helena-terra/comment-page-1/#comment-41

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Batatinha quando nasce



Ei, meu amor, sou eu, sua menina, digo, sua guria.
Ei, meu amor, tou falando contigo,
falando tipo batatinha quando nasce se esparrama pelo chão, rizomando com meu sultaque lá de Vacaria.
Ei, meu amor, já passa das nove horas, e eu tou por aqui empurrando o dia, cantando com a Alcione e a Maria Bethânia.
aquelas coisas de fazer rodeios e de roçar a nuca.
Ei, meu amor, vem me dizer bom dia.
E rir com a minha boca da tal pele arrepiada e dessa falta  de vergonha assim assim exagerada.

http://www.youtube.com/watch?v=ZRs-rzo0uLA

http://www.youtube.com/watch?v=Y73opo2RAPE


domingo, 24 de novembro de 2013

Quem sabe uma resposta?




O azul rasga  a terra enquanto os tênis marcam a areia. 
Marcas do que se faz. Não do que se foi. 
As pernas respondem bem a corrida. Os músculos seguem afinados com o ritmo  acelerado da música. 
A música só perde para o coração.
O coração não se cansa e não se cala. O coração é um segundo cérebro a serviço da humanidade constantemente testada. 
A meta de ter o coração preservado supera a de percorrer X quilômetros em um X tempo e a de ultrapassar quem deve, em tese, ficar para trás. 
As distâncias e o tempo são de verdade incógnitas. Se vacilarem, entram para o para a escola do professor Charles Xavier mesmo vencido pelo Magneto.
As distâncias e o tempo se fundem e nos confudem nos fusos e atmosferas programados  do planeta.
Diz um filósofo que engana-se quem pensa que o caos se organiza. 
Nossas percepções é que tentam em vão por ordem na casa. 
O caos é onipresente. E a casa  nem sempre é um lar. 
A casa é quem nela vive. Uma vez abandonada, volta a ser parede, piso e telhado, matérias vulneráveis como palavras e castelos de areia.
Talvez, até mais. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Só uma pergunta



                  Onde você vai morar quando o seu coração for embora?

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Imensa sorte



       
Lágrimas, uma sopa de lágrimas ela prepara sem descascar uma cebola. Devagar, colher de pau girando a água na panela, vai engrossando o caldo. Lembranças, remorsos, impotência. Os três se misturando em quantidades impossíveis de mensurar. De vez em quando, uma pitada de incompreensão outra de desamparo são lançadas como quem lança um monolito no infinito e se surpreende diante do fogo que chama e queima os dedos descuidados. Dedos finos, de unhas roídas, raladas pela ansiedade que zune nos ouvidos e abafa os apitos da chaleira e dos trens da infância e também o último silvo do guarda noturno em sua ronda incompatível com as nuances da cidade de vivos, mortos e indefinidos, espécie de temperos insonsos e incapazes de fazer diferença seja em um prato quente ou frio, na sobremesa ou no cafezinho servido puro, forte, amargo, servido com ojeriza aos paraísos artificiais do aspartame ou do açúcar, que caria a alma e cobre de gordura a cozinha, a xícara e a verdade de que seria uma sorte, imensa sorte, se a sopa fosse de pedra.

http://www.youtube.com/watch?v=x9r9O0vW-mM

domingo, 18 de agosto de 2013

Minhas mãos na caligrafia do seu peito

Minhas mãos sobre o teclado branco como a sua pele de nuvem.
E as suas nos bolsos do casaco escuro.
Minhas mãos desamparadas no vento de agosto.
E você passando pelo detector de metais, tirando o cinto, o relógio, trocando os óculos para não errar o portão de embarque.
Minhas mãos manchadas com as cores de um último desenho e com a memória do seu toque. 
E você em frente à cafeteria, pedindo um expresso e dois pães de queijo.
Minhas mãos prendendo os meus cabelos e acariciando o meu pescoço. 
E você desenrolando os fones de ouvido e fechando os olhos.
Minhas mãos negando sua partida, me avisando que mudei, mudei e voltei. 
Por você.






terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Hibernação

O bloguinho vai hibernar. 
No dia 21, será fechado como privado sem data para retorno.
Ninguém será convidado, portanto, não se sinta de fora! 
Não é nada pessoal.
Nem eu entrarei nele por um tempo.
Apenas darei a ele o tempo necessário para que possa ressurgir.
Um Natal feliz para os que nele acreditam!
E um Natal invisível para os que não!
E um 2013 novo para todos!
Beijosss

Bípede Falante

domingo, 16 de dezembro de 2012

Bípede no Janela Poética

No bípede falante nada da bípede, mas, no Diversos Afins, em uma janela poética, uma Helena à vista.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Antes do fim do mundo

O fim do mundo está aí, e eu preciso acabar um livro.
Um outro livro sem retratos ...
Então,  o Bípede Falante será o Bípede Mudo até o dia 21 de dezembro de 2012.
Depois, se a Terra continuar redonda e girando, volto a falar.
Até lá, beijos a todos 
da bípede Lelena :)

domingo, 2 de dezembro de 2012

De um álbum de invisibilidades XI

Esta é ela  acordando em um apartamento de praia com livros, com documentos e sem telefone e ela descalça, descabelada e de babydoll indo até a cozinha para esquentar o leite e comer um pão com manteiga antes do horário de sol.
Esta é ela a cantarolar e a pensar nele.
Estas são o fogão com cara de acorda que o gás se foi,  o chuveiro com cara de acorda que o gás se foi, e ela se dizendo acorda e toma vergonha na cara.
Esta é ela descalça, descabelada e de babydoll pelo corredor do edifício sem saber onde  é mesmo que se troca o gás.
E estas são a porta do apartamento fechada e ela no lado de fora, tapando a boca com as mãos para abafar o grito.
E ela tocando a campainha de um vizinho e de outro e de outro e ela diante do nada.
Esta é ela magoando os pés rumo a um orelhão.
Esta é ela em um orelhão ligando a cobrar para deus e o mundo sabendo que à distância ninguém pode mesmo ajudar.
Esta é ela pensando nele.
E estas são um ele passando por ela e falando aí, gatinha, caiu da cama.
E um outro ele dizendo gostei da calcinha.
E estas são mulheres de biquini fingindo que ela não existe.
E esta é ela sentindo falta dele, pensando se ele ainda sabe que ela existe.
E estas são ele e uma outra ela  em uma lojinha de museu, eles preparando um jantar, eles rindo do gato fujão e eles exibindo pedras e juras de amor.
E esta é ela sentando na calçada, apoiando o rosto nas mãos e se diluindo no horizonte feito uma onda de amar.

Nos fones de ouvido: Wave Come Fa Un'onda


De um álbum de invisibilidades X

Esta sou eu em um antiquário a espirrar o pó de mundos antigos à procura de uma porta que se abra para o meu. Sou eu passando as mãos em restaurações e dizendo ao vendedor que nenhuma serve porque estão todas sem cicatrizes e mudas.
Esta é uma porta afastada das outras, coberta de teias de aranha, com flores  sobreviventes ao sol e à chuva e com um casal  sobrevivente desenhado à caneta no lado de dentro.
Este é o vendedor  falando que pode apagar os desenhos e lixar a madeira e a colorir e a deixar novinha em folha.
E esta sou pensando esse cara é um porta e dizendo a ele que não se atreva a tocá-la.
Estas são o meu pai na minha casa nova  elogiando os enfeites, a televisão, a geladeira e querendo saber o preço de cada coisa.
E o meu pai parado em frente a minha porta descoberta de teias de aranha,  mas ainda com flores sobreviventes ao sol e à chuva e com um casal  sobrevivente desenhado à caneta no lado de dentro  exclamando, minha filha, nunca vi coisa mais feia!
Esta sou pensando como esse porta pode ser o meu pai.
E esta sou eu, tamborilando os dedos sobre uma coxa, parada diante de quatro elevadores, querendo ir a um décimo andar.
Esta é uma mulher de coque,  vestido preto e avental branco dentro do primeiro elevador a se abrir.
E esta sou eu perguntando a ela se vai subir ou descer, e ela olhando para o chão, falando baixinho que, se eu preferir, pode sair e usar o de serviço.
Esta é a minha cara de choque, explicando que perguntei se o elevador está subindo ou descendo e não se ela  está subindo ou descendo, que, se ela também for subir, fico contente por ter companhia.
E esta é a de um sorriso surgindo no rosto dela, ou talvez de uma cicatriz, antes de eu entrar.

Nos fones de ouvido: Ponteio

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades IX

Esta sou eu, os meus fones de ouvidos e os meus cães: o melhor cão do mundo e um cão caminhando em um final de tarde.
Este é o sol indo embora nas águas de um rio e adentrando nas da minha memória.
E este é o cão de costas para mim defecando sua animalidade bem no meio da calçada.
Esta sou eu pegando com o saquinho plástico a sujeira e reclamando o local escolhido. 
Estes são o cão, o melhor cão do mundo e eu depois de três quadras e nada de encontrar uma lata de lixo.
Este é o melhor cão do mundo um pouco mais afastado das minhas pernas do que o habitual e  esse é o  um cão mais perto sacudindo a cauda.
Estas sou eu dizendo bingo diante de uma lata de lixo enorme e aberta em frente a um edifício do outro lado da rua.
E eu atravessando a rua, cantarolando contente por ter encontrado uma lata de lixo enorme e aberta e lembrando dos meus desastres  nas aulas de educação física e arremessando o saquinho plástico em uma cesta imaginária.
Este é o saquinho de plástico sobre o cimento.
E esta sou eu  rindo e pensando que motricidade ampla nunca foi mesmo o meu forte enquanto me abaixo para recolher o meu erro.
E eu bem perto da lata de lixo jogando outra vez a animalidade de um cão.
Esta é animalidade  caindo sobre um ser vivo que abre sacos de lixo.
Estes são os cabelos ressecados, a boca rachada e as pernas de menino do ser vivo que abre os sacos de lixo.
Estas são as mãos dele tentando proteger o rosto.
Estas são as  minhas mãos largando as guias dos cachorros.
E estas são o meu coração rolando corpo abaixo rumo ao cimento.
A minha mente em alta velocidade me acusando de ser um lixo.
E  eu me debruçando e recolhendo, do colo dele, o saquinho plástico.
E estes somos nós dois, nossas lágrimas  e o horror.
E esta sou eu,  caminhando outra vez pelas ruas carregando a animalidade de um bicho.

Nos fones de ouvido: Haiti

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades VIII

Esta sou eu chegando na casa de uma amiga com os  meus cabelos escovados, o  meu rosto maquiado, as minhas unhas pintadas e pronta para ir à missa e depois pegar um avião.
Esta é a minha amiga dentro da casa nova dela me esperando com outras amigas.
E é ela me dando um abraço bem forte.
E estas são todas elas juntas me dando um abraço mais forte, me dizendo  vai ficar tudo bem, estamos com você.
E esta é a sogra da minha amiga, sentada em um banquinho fazendo tricô.
Esta é a minha amiga dizendo: dona fulana, essa é a beltrana de quem lhe falei, foi ela quem perdeu a mãe, minha madrinha.
Esta sou eu parada em pé diante do movimento constante das agulhas e do par de olhos sobre mim.
Este é o olhar imóvel da sogra da minha amiga  por cima dos óculos a me radiografar de cima abaixo.
E esta sou eu meio sem graça diante da inspeção e pensando por que ela não diz nada nem se levanta.
Esta é ela, grudada no acento,  articulando os lábios para perguntar com calma: morreu de que a sua mãe, minha filha?
E esta sou eu liberando um suspiro, relaxando os ombros, aliviada com o interesse e diminuindo a tensão.
E eu respondendo também devagar: a mãe morreu de câncer.
E esta é ela me dizendo  gente ruim morre de câncer.
Esta sou eu morrendo  mais um pouquinho.
E esta é a minha amiga puxando a sogra pelo braço, exclamando dona fulana o que é isso,  e a levando para tomar uma xícara de chá na cozinha.

Nos fones de ouvido: Mãe

De um álbum de invisibilidades VII

Esta é ela com sandálias pretas de verniz amarradas aos tornozelos balançando o corpo lentamente de um lado para o outro.
Estes são os tecidos dela vestindo de nuvem a sala bagunçada de brinquedos.
E esta é ela cantando won't you stay in my arms enquanto o corpo gira sedução.
E estes são eles calando os gritos e a correria.
Esta é a menor fascinada pelas sandálias pretas de verniz amarradas aos tornozelos da mãe.
E a menor acompanhando com os ombros a mãe, querendo ter a pele de pêssego da mãe, a boca vermelha da mãe, as mãos da mãe, desejando ser leve como a mãe.
E esta é a maior dizendo chega para lá que também quero um lugar no sofá.
E estas são as duas, os três, os cincos fascinados.
E estas são a menor voltando a um quarto cor de rosa, passando a mão sobre o papel de parede antigo, sentado em frente ao tocador já sem perfumes, sem estojos e sem um abajur com pompons.
E a menor abrindo a mala, as lembranças, o guarda roupas recheado de figurinhas e de datas.
E lendo, nos números, os primeiros beijos, as primeiras noites, o primeiro amor.
E olhando para o terninho marrom sobre a camisa de seda pendurado em um solitário cabide e para um par de sapatos discreto como a mãe.
E  chamando por  aquela que foi também um útero e perguntando  que traje é esse no meu armário?
E esta é esse outro útero, respondendo, com os olhos arrasados,  que são as roupas com que sua mãe quer ser enterrada e  que pediu para você ver.
E esta é a filha de ambas,  sem enxergar mais nada, dizendo que sim, que diga à mãe que essa está bem.

Nos fones de ouvidos: The Way Old-fashioned

De um álbum de invisibilidades VI

Este é um quarto com paredes azuis, um par de passarinhos sobre a cômoda e mais um tip top sendo pendurado em um cabide.
Esta é ela sorrindo, dizendo a ele que o quadro tem de ficar mais perto do berço.
Este é ele carregando uma bolsa e uma malinha e pegando as chaves do carro.
E esta ela respirando um pouco mais rápido, perguntando se ele pegou mesmo a malinha.
Estes são os dois na sala de parto.
Estes são os dedos dele alisando o rosto dela  prontos para receber a obra feita a quatro mãos.
Este é o médico falando força, vamos, está quase lá.
Estes são os óculos dele embaçando os olhos de primeira viagem e registrando, sobre o seu, o choro de um bebê.
E este é um bebê livre de líquidos e de um cordão.
E estas são ele contando os dedinhos de um bebê livre de líquidos e de um cordão.
E ele reconhecendo o mapa de sua geografia na nova vida.
E este é o mapa dela sendo reconhecido na geografia da nova vida.
Estes são os três voltando para casa  e para um quarto de amor.
Estas são ele reafirmando o seu afeto algumas noites depois.
E ele colocando em dúvida o seu afeto alguns anos depois.
E esta é ela chorando, implorando em nome de todos os umbigos  pelo antigo amor.
E estas são ele outra vez se deixando levar por líquidos e por cordões.
E  garantindo a ela que não foi nada sério e a outra pessoa é só um engano.
E escrevendo, deixando claro em preto e branco o seu  foi tudo um engano.
E  ele fechando a porta, desligando o telefone, desligando o coração.
E esta é ela sorrindo, dizendo a ele que o quadro tem de ficar mais perto da cama.
E esta é  o engano sabendo que é um engano, fechando a porta, desligando o telefone e implodindo o coração.

Nos fones de ouvido: I love you


terça-feira, 27 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades V

Este é um quarto com paredes amarelas, um par de ursinhos polares sobre uma cômoda e mais um tip top sendo pendurado em um cabide.
Estas são ela com uma barriga pontuda, sentada na cadeira de balanço que era da avó fazendo planos para o futuro.
E  ela transpirando,  tonta e com um pouco de dor.
E deitada em uma maca em uma sala de pré parto respondendo a uma médica que não, não entende direito o que está acontecendo.
Este é o teto branco da sala de pré parto maculado por uma aranha a caminhar no roda forro.
Estas são ela, assustada, chamando por uma enfermeira para matar o bicho que deve carregar infecções.
E  ela, mais assustada ainda, dizendo à enfermeira  acho que rompeu a bolsa, e a enfermeira dizendo, não, você está tendo uma hemorragia.
Esta é a anestesista errando a picada e atingindo, na coluna, um nervo e um grito.
E esta é ela em um estado de nervos de dar dó.
Esta é a outra médica negando o pedido por uma cesariana, descartando a opção, dizendo não vale a pena porque essa criança não é compatível com a vida.
Estas são ela implorando por um fim e ignorando que também corre risco de vida.
E em contrações, perdendo os sentidos e acordando e perdendo os sentidos e acordando e perdendo.
E ela na Unidade de Tratamento Intensivo ao lado de uma mulher que geme, geme e geme.
Estas são duas plantonistas comentando o quanto é dolorida a plástica da mulher que geme, geme e geme.
E esta é uma delas dizendo à outra que não se preocupe com a  moça silenciosa, a moça silenciosa  só perdeu um filho e isso não desencadeia  tanta dor.

Nos fones de ouvido: Travessia

sábado, 24 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades IV

Esta sou eu descobrindo o perfume das páginas e alisando a capa fosca de um livro.
Este é um livro a alisar o meu rosto com sua capa fosca em frente a estante de uma grande livraria.
Estes são alguns curiosos achando esquisito o império dos  meus sentidos sobre o papel.
E estas sou eu a suspirar as sensações da escrita já na fila do caixa falando para as outras pessoas que essa, sim, é uma obra.
E sou pedindo à vendedora que faça um pacote bonito e passe nele um laço de fita.
Esta sou eu colocando as mãos na cabeça,  espantada com o quanto você é desajeitado.
E este é você salvando a vítima  e a si mesmo de uma poça.
E esta sou eu a rir, perfumando os seus cabelos com as minhas mãos, alisando o seu rosto com as minhas mãos e deixando-me levar pelo murmúrio das suas  palavras enquanto você seca com o casaco o que resta de água.
Estas são a minha caligrafia aprendendo a sua temperatura e as suas linhas como se estivesse em oração.
E o meu coração abafando os sinos de uma  catedral e calando o seu falatório com o meu beijo.
E  a minha fé sendo resgatada por datas inscritas em um chão de poetas.
Estes são os meus olhos abraçados ao seus como se neles fosse possível ler um feliz título.
E este é você falando com as beatas e se balançando em direção ao banheiro a me dizer não demoro.
Esta sou eu contando os segundos e os batimentos cardíacos.
E este é você acelerando o passo.
E estes somos nós dentro de nós e dentro de um carro.
E estas sou  eu dizendo preciso ir embora, e você abrindo a porta.
E  eu paralisada por lágrimas enquanto você acelera rumo ao destino.

Nos fones de ouvido: All of me


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades - III Parte

Estas sou eu, na cozinha, fazendo pipocas.
E eu sentada no sofá em frente a TV, assistindo A Primeira Noite de um Homem e oferecendo a ele os meus pedaços de nuvens.
Este é ele um pouco desconcertado diante da Sra.Robinson.
Esta sou eu fazendo cócegas nele e dizendo: conta, conta!
E este é ele curioso sobre a primeira noite de uma mulher.
Esta sou eu e o som da memória.
Estes somos nós: um outro ele e eu deitados na mesma cama noite e dia.
Esta sou eu caminhando a minha inocência pelo quarto.
E este é o outro ele  medindo meus contornos com a boca e com as mãos.
E estas são você em um outro lugar.
E você oferecendo a ela a primeira noite de uma mulher, oferecendo a ela as muitas noites de uma mulher.
Estas sou eu pensando em ser a noite de um homem qualquer.
E eu acordando com um homem qualquer, dizendo não, não, deixa que eu ligo.
E  passando os dedos sobre o catálogo, procurando o seu número de telefone.
E sentada duas fileiras atrás de vocês e me segurando para não jogar pipocas nos cabelos dela, para não me levantar e rodar uma baiana, uma interiorana e um big drama.
E este é o seu braço sobre os ombros dela.
E este são os seus cabelos misturando-se aos dela.
E estas são a minha raiva tocando no carro.
E eu ouvindo Slave to Love, rindo e dançando com uma lingerie de renda branca.
E este é um novo ele se derramando de vinho e de afeto.
Esta sou eu me derramando em lágrimas, assistindo, de novo, A Primeira Noite de um Homem.
E esta sou eu contando pipocas sem saber por que você não vem para perto.

Nos fones de ouvido: Slave to Love

terça-feira, 20 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades - II parte

Estes são os meus cabelos cobrindo meu coração de pão de mel naquele carnaval em que rasguei minha fantasia e você se atirou na piscina.
Estas sou eu, sem os cabelos de Rapunzel, fingindo que durmo sob o sol para você olhar para o meu pescoço pálido e fininho.
E  eu  saindo de fininho com meus óculos escuros, despachando a mala, abanando para o ar, chorando o mundo lá de cima.
E eu e o último aniversário da minha mãe antes de eu sair de fininho, colocar os óculos escuros, despachar a mala e abanar o ar para chorar o mundo lá de cima.
Este é um rapaz com um jardim no olhar esperando, no desembarque, por outra pessoa.
Estas sou eu passando por ele e pela outra pessoa,  tropeçando em mim mesma, atrasada  para o trabalho e pedindo pressa ao taxista.
E  eu aos gritos, dizendo siga aquele outro táxi porque o Raduan Nassar está nele e pouco me  importa se ele vai em outra direção.
E este é o taxista a me espiar pelo retrovisor e a seguir aquele outro táxi que estamos prestes a perder de vista.
Estas sou eu sentada na mesa ao lado da sua na padaria da esquina: inconformada, quebrada  e  já quase demitida no início do mês.
E eu relendo o meu Um Copo de Cólera enquanto como o pão com manteiga que a solidão amassou.
E este é você,  tão perto, sem poder enxergar um palmo em frente, ao lado e atrás do seu nariz, lendo Memórias Póstumas de Brás Cubas enquanto come o pão com manteiga que a solidão amassou.
Esta sou eu fechando a porta e descendo a avenida à pé, dizendo não, não, o relógio é meu e a dona da raiva sou eu.
Estes são meus amigos rindo do meu desatino em enfrentar um pivete.
E os meus amigos e eu com cara de mais espanto do que a de enfrentar um pivete diante da cena final de um filme.
Esta é a minha amiga, cansada de cinema, dormindo uma última noite em meu quarto antes de partir.
E esta sou eu me sentindo partida.

Nos fones de ouvido: Promessas demais.




domingo, 18 de novembro de 2012

De um álbum de invisibilidades - I parte


Esta sou eu na fila para comer canjica.
Deve ser inverno porque aparece embaixo do guarda pó branco uma gola alta. E eu devo ter uns sete anos porque, no meu sorriso, a porteira está aberta.
Esta sou eu lendo A Chave do Tamanho e pensando se o meu cachorro seria capaz de me engolir, se meus parentes seriam capazes de me engolir, pensando quem seria capaz. As  bolachas Maria entre os dedos são porque eu sou magra de ruim e não de fome ou enfastiada.
Esta sou eu de macacão.
Meu pai disse que eu quando eu morrer irei para o planeta dos macacos. Por merecimento. Cada macaco no seu galho é melhor que todos misturados.
E esta sou de camisola de flanela combinando com o chinelinho. O laço de fita no cabelo revela minha fase Alice no país das Vacarias e a admiração pela minha mãe sempre arrumada e cheirosa para dormir.
Esta sou eu chorando porque a mãe da minha colega veio devolver o relógio que dei a ela, dizendo que a filha não é ladra, que é pobre mas é honesta.
Esta é ela chorando depois de eu dizer, sim, claro que sua filha é honesta.
E esta é a filha chorando me dizendo que não vai mais ser minha amiga.
Estas sou eu na reunião dançante com as minhas outras amigas.
E euu na reunião dançante que eu pensei que você ia falar comigo.
Fiquei meia hora escovando os cabelos para que eles tivessem mais brilho. Passei brilho nos lábios.
Esta é você com ela.
Pensei em recortar a foto. Mas é impossível recortar a verdade.
Esta sou eu e ele no dia em que ele chegou lá naquela outra festa em que você também não foi falar comigo.
Esta sou eu e ele de mãos dadas.
Esta sou eu sozinha.
E esta sou eu e a mãe que realmente me cuida me dizendo que vai ficar tudo bem.
Estas sou eu escrevendo uma cartinha para a minha melhor amiga, dizendo a ela que vai ficar tudo bem.
E eu lendo Pais e Filhos sem entender quase nada. Ou entendendo quase tudo e por isso um tanto nauseada.
Esta comprando briga com a perua que furou a fila.
E eu brigando com o grandalhão que deu a entender que a minha irmã é uma galinha.
Esta sou eu brigando com o meu pai porque ele não quer que eu seja uma galinha.
Esta é a minha irmã  me chamando de galinha porque passei o final de semana na praia com o namorado.
Esta sou dizendo  a um professor que ele pare de cantar de galo, que depois da aula eu vou é para casa.
Este é o  chefe do chefe da minha editora mandando eu fazer uma entrevista no quarto de um sabidão.
Estas sou eu depois da ordem.
E a minha expressão de desordem. E  a minha mão que bate. E a minha língua de látego.
E estas?
Destas, falo depois.

Nos fones de ouvido: Joyce, música de um tempo de menina

domingo, 11 de novembro de 2012

Como o remorso perdido de um título


Nada disso deixará um instante.
E um anoitecer encobrirá o que poderia ter sido.
E lido como um livro não escrito,
como o remorso perdido de um título.
Nada disso deixará um instante.
E ela verá as palavras  multiplicando-se
sobre as mãos magoadas.
E, com os olhos ignorantes e encharcados de afeto,
pousará a fé por entre os contornos do bilhete
e da caligrafia não traduzida
do que ela sente e deseja
de cor e salteado.

Agora respire fundo


Diga trinta e três.
Diga outra vez.
Agora respire fundo.
Dói?
E se eu pressionar aqui?
Mais? Menos?
Como não importa?
Podemos bater um raio X.
Não é necessário, você  sabe o que tem?
Asas?
Não entendi!
Asas dentro dos pulmões...
Você tem asas dentro dos pulmões?
Asas de frango? Patos? Perdizes?
Se engasgou?  Mas que pássaro engoliu?
O seu?
De onde tirou essa ideia?
Não. Não.
Não!
Vamos recomeçar.
Diga o seu nome.
Diga o  nome dos seus pais.
E o seu endereço.
O número do seu telefone?
A cidade em que nasceu!
Certo.
E que dia é hoje?
E o mês e o ano?
Certo.
Certo...
Então, diga trinta e três.
Diga outra vez.
Agora respire fundo.
Respire.
Respire!
Vamos, respire o fim...

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Escreve



Escreve sobre o caldo derramado.
Sobre a sopa.
Escreve sobre o leite.
O leite da infância,
o leite dos copos,
o leite coalhado em flor.
Escreve o leite dos homens.
Do homem derramado na cama, na calçada,
na marca de outra dor.
Escreve sem caligrafia.
Escreve no lençol desafinado
e nas linhas sem clave
da trama, do vício e da morte
do horror.

Em meio a guloseimas e tolices


Para Cris de Souza

Estava à toa no facebook quase como na vida.
Na vida, nada é à toa. Muito menos a comida.
À toa se escreve separado? Será que pode ser junto?
Estava à toa no facebook e era hora do almoço.
E no livro do Manuel António Pina, ele me garantia: no princípio era o Verbo (e os açúcares e os aminoácidos).
E eu estava a comer uma coxinha gorda de galinha que só não estava perfeita porque não tinha Marili, farinha, farofa e companhia.
Havia rima e o diminutivo.
E tudo isso sem motivo.
Estava à toa no facebook, e eu sei que isso não é grande coisa.
Mas veio a Cris, a de Souza, e falou:
" troquei as leituras
de Romeu e Julieta
por goiabada com queijo."
E eu pensei : eis a troca!
Se de amor se morre, de goiabada com queijo se vive.
Mesmo que seja assim em meio a palavras, guloseimas e  tolices.



quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Bicho de dez dedos






Faz um bocado de anos que não tomo refrigerantes.
Também não fumo ou bebo. Um cálice de vinho nas minhas mãos é um cálice de suave eternidade.
E, talvez, meu corpo me agradeça por isso.
Não sei.
Meu corpo costuma ser ingrato e já pensou seriamente em me abandonar.
Precisei implorar: não me deixe.
A alma não nos abandona.
Não é ela quem faz as malas carregadas de adeus.
Faz um bocado de anos que desdobrei meu corpo em dois para que corresse por essa casa o sorriso de um menino.
Um dia, na época desse mesmo um bocado de anos, disseram-me que ele não iria sorrir.
E eu chorei.
E chorar seria o óbvio se fosse fácil, para mim, chorar.
Nunca foi, mesmo quando a fratura era no braço fininho ou quando a fratura era em algum lugar escondido da minha vida de menina que podia ir sozinha ao hospital trocar o gesso.
A mãe precisava descansar a beleza; o pai, o trabalho.
E o destino do leite  derramado sempre foi o de ser limpo.
Então, ainda levanto, nas noites de maior angústia, para pegar em panos e baldes e faxinar os rodapés, as portas, os meus lugares invisíveis.
Deixo tubo brilhando como se  em meus dedos houvesse uma luz divina.
Nos meus dedos há afeto, pensamentos, fraquezas e  forças.
E eu sou humana.
São meus dedos que me movem e me dão vida.
Não são meus pés nem minha voz.
Uma galo não deixa de ser um bípede falante.
São os meus dedos que constroem os meus desenhos, que buscam nos destroços do que despencou para dentro, as cores do meu mosaico.
São  os meus dedos que digitam as letras dos meu silêncios, dos meus medos e das minhas saudades.
São os meus dedos as minhas dores e o meu sossego.
São os meus dedos a  fé que cura as minhas lágrimas.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O sonho da causa própria


Quando eu tinha doze anos, costumava colorir mapas.
Coloria por castigo na biblioteca da escola.
Sim, eu ia de castigo.
Até hoje não sei direito o porquê. Provavelmente porque perguntava mais do que devia e porque não havia feito a primeira comunhão.
Eu não podia fazer a primeira, nem a segunda, nem quantas comunhões fossem necessárias, porque não temia a deus ou ao diabo.
Nunca fui temente a deus, ao capeta, nem ao pai, nem a mãe e nem ao espírito santo.
Temia o velho do saco.
Na minha cidade, o que não faltavam eram velhos com sacos.
No ano passado, comprei um livro sobre ela e rolei de rir ao perceber que, entre doidos e gente que fez alguma coisa que merecesse destaque, sempre foram em maior número os doidos.
Na minha família, tinha um. Um com carteirinha, medicação e camisa de força.
E tinha e tem ainda os que sempre andaram soltos.
O de carteirinha, uma vez, tirou boa parte da roupa, pegou os pés e saiu pelas ruas buzinando e gritando: loucademia de polícia!
Eu sempre quis falar sobre essa loucademia de polícia, mas enquanto meus pais estiveram vivos, minha boca foi muitas vezes desligada.
A gente às vezes é desligada com a mesma simplicidade com que se aperta um interruptor de luz.
Os movimentos são diferentes, é claro. Há uma certa complexidade em torno do ato, um palavrório cheio de justificativas para simular uma certa dignidade, mas no fim das contas, todos sabem do que estou falando.
Não é difícil entender.
A maior parte do que não entendemos é porque não queremos. Por excesso de teimosia, por excesso de medos, por excesso de amor, por excessos gerais.
Os excessos estão sempre a serviços gerais.
E em causa própria.
Em causa própria rende mais que em casa própria.
O sonho da causa própria passou para trás todos os outros.
O sonho da causa própria é o grande amor do ego.
Em nome do ego, se diz uma coisa e depois se faz outra.
Em nome do ego, uns vêem nos outros aldeias e ainda se pensam o mundo!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Se não despencassem tanto as letras




Se...

Não despencassem tanto as letras
do olhar das palavras, 
seria ela capaz de juntar as frases
e de esquecer as linhas 
retas de réguas e de centímetros
imponderáveis em longas distâncias.

Se...

Não andassem tão velozes os dedos, 
poderia ela amaciar
o toque sobre o teclado
e diminuir o ruído da chuva 
e identificar os ruídos dementes do coração.

Se...

Não se quebrasse tanto a escrita
e dela não surgissem tantos trechos 
e tantas personagens,
tingiria ela de vermelho 
o que se esconde no preto no branco
da pele encharcada de amor.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Queria contar a verdade para alguém uma vez na vida


De vez em quando reabro livros já lidos.
Nessa madrugada, escolhi o De Verdade, do Sándor Márai. 
Pé por pé caminhei até a prateleira de autores húngaros.
Poucos na estante  por razões editoriais. Não por falha minha. 
Eu corro atrás, mas às vezes não tem nada na frente.
Encontrei dois. Dois De verdade. Dupla verdade. 
O meu todo riscadinho.
E o outro meu com a dedicatória de uma amiga.
O meu todo riscadinho terminei de ler em vinte e dois de maio de dois mil e cinco.
Um ano bom. Ou eu pensava que era.
Alguns anos são bons como vinho.
Outros são leite derramado.
Este ano, dois mil e doze, apesar de quase liquidado, está sendo  mais sólido.
Um ano em que é preciso mastigar bem antes de engolir.
Mastigar antes de engolir dos grãos às verdades e suas mentiras.
Há de se dizer a verdade mesmo que seja mentira.
E eu queria contar a  minha verdade para alguém uma vez na vida.
Uma vez na vida é uma vez e só.
Uma única vez como é o amor.
E o amor não é amar um no passado, outro no presente e alguém mais no futuro. 
O amor não é um mar entre ilhas.
Talvez seja, nem sei, porque tudo o que um dia foi dito pode ser no seguinte desdito, e as chances de eu estar enganada são altas.
Bem mais longilíneas que eu com a minha estatura mediana e meu peso leve no corpo e inversamente proporcional na alma.
O inversamente  proporcional não deixa de ser um eufemismo.
A palavra certa seria neurótica na alma.
Neurótica e dependente de sessões de terapia.
O que pode também ser um eufemismo da minha condição de burguesia.
Pago para poder dizer o que sinto, penso e logo existo a uma pessoa em quem confio.
E me sinto, penso e logo existo, sim,  exatamente como  escrevi na página 392 do meu De Verdade todo riscadinho: eu sou uma burguesa  imbecil.
Sou uma burguesa imbecil e também uma babaquinha. Não muito grande, mas sou.
Faço parte do grupo de pessoas que guardam todo tipo de coisas inúteis nas muitas coleções.
Faço parte do grupo de pessoas que costuma se iludir dizendo que está a guardar informação, cultura, afeto etc.
E é mentira.
De verdade,  guardo solidão e fantasias.

sábado, 29 de setembro de 2012

Da série escritos dentro de um livro


Da arte de escolher nuvens e descobrir seus sexos
Das rachaduras do avesso
Das coisas trincadas na língua
Da inutilidade de um cardume de gentes
Do que cresce entre as mãos e se revela em abandono
Do que se fecha como uma passagem e se abre em cicatriz
Das coisas que não digo e que não sei
Surge a palavra incompleta
do voo curioso
e  adornado de amor.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Tamanho não é documento II




Faz tempo que não tento cronicar.
Talvez porque a palavra crônica traga em sim muitas mensagens, e nem todas me sejam favoráveis.
Vem do grego chronos. 
E chronos é tempo. 
E tempo não é dinheiro como dizem por ai.
Time is not money!
Tempo somos nós. Cada um dentro da sua brevidade e de sua insignificância.
Somos insignificantes mesmo que alguns pensem ser grandes riquinhos, grandes ricaços. 
Grandes issos e aquilos.
Enfim, importantes.
Importância é algo relativo.
Muito relativo.
Tamanho cabe mesmo é em réguas e gráficos.
Em pessoas, se ajustam melhor  sensibilidades, criatividades, intensidades e outros ades.
Quem sabe cidades? 
O Rio de Janeiro é um zilhão de vezes maior que Vacaria. 
Vacaria cabe inteirinha dentro do Maracanã e ainda sobram algumas cadeiras para os bairros de uma  comunidade vizinha.
Como metáfora, ser uma cidade grande ou pequena até cai bem. 
Ter ruas, esquinas e parques dentro de si areja os esgotos, os buracos e as violências que também somos.
Mas mais que isso não faz.
Fulano não é maior que beltrano porque fulano mora em uma metrópole.
Fulano, certamente, tem ao alcance das mãos mais arte, lojas, restaurantes, tecnologias.
Entretanto, ter não é  ser.
Não é. 
Todo mundo sabe.
E é bem possível que o fulano não passe uma tarde sentado em frente a um Picasso há séculos.
Do mesmo modo que é bem possível que o beltrano tenha terminado hoje de manhã  de ler a biografia  do gênio, sentadinho ali perto do seu fogão e tenha se emocionado diante de uma fase azul.
Como disse o Veríssimo, oh, Luis Fernando Veríssimo: a gente pode ser cosmopolita vivendo em uma cidade pequena e um caipira vivendo em uma enorme.
A gente pode ser grande ou pequeno por fora.
Pode ser maior na  cintura ou na conta bancária.
Pode em tantas coisas.
Mas, nas incomensuráveis, não.

sábado, 15 de setembro de 2012

Posses



Tenho sonhos de criança muito grandes para esse corpo de mulher.
E um sangue mudo a correr pelas veias.
Do ponto em que começa o silêncio até o deserto da escrita.

Tenho fotografias coloridas e em preto e branco.
E um registro imutável de memórias gravado em buscas.
Desde o encontro até a ausência.

Tenho beijos fora da boca afogados na saliva das saudades.
E a imensidão do tempo contra a pele.
Das manhãs que não encontraram as tardes e esmagaram as noites.

domingo, 9 de setembro de 2012

Como se fosse simples


Subiu o coração
e acariciou o céu
e derramou amor
como se fosse nuvem.

Subiu o coração
e despencou palavras
e escreveu suspiros
como se não houvesse pressa.

Subiu o coração
e abriu os olhos
e molhou a poesia
como se criasse pele.

Subiu o coração
e cresceu inteira
e se viu delicada
solitária
e imensa.




Leituras a partir de 1 de janeiro de 2012

1. Bilhete seco - Elisa Nazarian
2. Quando fui morto em Cuba - Roberto Drummond
3. O retrato de Oscar Wilde Fragmentos
4. Estrela miúda breve romance infinito - Fabio Daflon
5. Poemas - Wislawa Szymborska
6. Mar me quer - Mia Couto
7. Estive em Lisboa e lembrei de você - Luiz Ruffato
8. O pai invisível - Kledir Ramil
9. Poemas de Eugénio de Andrade - Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva
10. Os da minha rua - Ondjaki
11. A máquina de fazer espanhóis - Walter Hugo Mãe
12. Vigílias - Al Berto
13. Poemas concebidos sem pecado - Manoel de Barros
14. Face imóvel - Manoel de Barros
15. Poesias - Manoel de Barros
16. Compêndio para uso dos pássaros - Manoel de Barros
17. Gramática expositiva do chão - Manoel de Barros
18. Matéria de Poesia - Manoel de Barros
19. Arranjos para assobio - Manoel de Barros
20. Livro de pré-coisas - Manoel de Barros
21. O guardador de águas - Manoel de Barros
22. Concerto a céu aberto para solos de ave- Manoel de Barros
23. Quinta Avenida, 5 da manhã - S. Wasson
24. A literatura em perigo - Tzvean Todorov
25. O remorso de Baltazar Serapião- Walter Hugo Mãe
26. Lotte & Zweig - Deonísio da Silva
27. Indícios flutuantes (poemas) - Marina Tsvetáieva
28. A duração do dia - Adélia Prado
29. Rua do mundo - Eucanaã Ferraz
30. Destino poesia Antologia - organização Italo Moriconi. Ana Cristina Cesar, Cacaso, Paulo Leminski, Torquato Neto e Waly Salomão
31. Tarde - Paulo Henriques Britto
32. Correnteza e escombros - Olavo Amaral
33. Nelson Rodrigues por ele mesmo
34. A última coisa que eu pretendo fazer na vida é morrer - Ciro Pellicano
35. O encontro marcado - Fernando Sabino
36. O óbvio ululante - Nelson Rodrigues
37. O grande mentecapto- Fernando Sabino
38. O homem despedaçado - Gustavo Melo Czekster
39. Dia de São Nunca à tarde - Roberto Drummond
40. O canto do vento nos ciprestes - Maria do Rosário Pedreira
41. Antes que os espelhos se tornem opacos - Juarez Guedes Cruz
41. Desvãos - Susana Vernieri
42. Um pai de cinema - Antonio Skármeta
43. No inferno é sempre assim - Daniela Langer
44. Crônicas de Roberto Drummond.
45. Correio do tempo - Mario Benedetti
45. Gatos bravos morrem pelo chute - Tiago Ferrari
46. Gesso & Caliça - Alberto Daflon Filho e Fabio Daflon
47. A educação pela pedra - João de Cabral de Melo Neto
48. O fio da palavra - Bartolomeu Campos de Queirós
49. Meu amor - Beatriz Bracher
50. Os vinte e cinco poemas da triste alegria - Carlos Drummond de Andrade
51. A visita cruel do tempo - Jennifer Egan
52. Cemitério de pianos - José Luis Peixoto
53. O amante - Marguerite Duras
54. Bonsai - Alejandro Zambra
55. Diciodiário - Valesca de Assis
56. Não tenho culpa que a vida seja como ela é - Nelson Rodrigues
57. Lero-lero - Cacaso
58. O livro das ignorãças - Manoel de Barros
59. Livro sobre nada - Manoel de Barros
60. Retrato do artista quando coisa - Manoel de Barros
61. Ensaios fotográficos - Manoel de Barros
62. A queda - as memórias de um pai em 424 passos - Diogo Mainardi
63. Junco - Nuno Ramos
64. Os verbos auxiliares do coração - Peter Estérhazy
65. Monstros fora do armário - Flavio Torres
66. Viagem - Cecília Meireles
67. Cora Coralina - Seleção Darcy França Denófrio
68. Instante - Wislawa Szymborska
69. Dobras do tempo - Carmen Silvia Presotto
70. Eles eram muitos cavalos - Luiz Ruffato
71. Romanceiro da inconfidência - Cecília Meireles
72. De mim já nem se lembra - Luiz Ruffato
73. O perseguidor - Júlio Cortázar
74. Paráguas verdes - Luiz Ruffato
75. Todas as palavras poesia reunida - Manuel António Pina
76. Vidas secas - Graciliano Ramos
77. Inferno Provisório Volume II O mundo inimigo - Luiz Ruffato
78. O ano em que Fidel foi excomungado - José de Assis Freitas Filho
79. Boneca russa em casa de silêncios - Daniela Delias
80. As cidades e as musas - Manuel Bandeira
81. Billie Holiday e a biografia de uma canção Strange Fruit - David Margolick
82. Inferno Provisório Volume III Vista parcial da noite - Luiz Ruffato
83. Inferno Provisório Volume V - Domingos sem Deus
84. Inferno Provisório Volume IV - O Livro das impossibilidades - Luiz Ruffato
85. Pedro Páramo - Juan Rulfo
86. Zazie no metrô - Raymond Queneau
87. Fora do lugar - Rodrigo Rosp
88. Salvador abaixo de zero - Herculano Neto
89. Inferno Provisório Volume I - Mamma, son tanto felice - Luiz Ruffato
90. A virgem que não conhecia Picasso - Rodrigo Rosp
91. Claro Enigma - Carlos Drummond de Andrade
92. Tempo dividido - Sophia de Mello Breyer Andersen
93. A Rosa do Povo - Carlos Drummond de Andrade

Leituras a partir de 1 de janeiro de 2011

1.Desgracida - Dalton Trevisan
2.Diário de um banana - Jeff Kinney
3. Poemas escolhidos, seleção de Vilma Arêas - Sophia de Mello Breyner Andresen
4. Oportunidade para um pequeno desespero - Franz Kafka
5. Venenos de Deus, remédios do Diabo - Mia Couto
6. Ventos do Apocalipse - Paulina Chiziane
7. Para gostar de ler - Contos Africanos
8. Vinte e zinco - Mia Couto
9. O Vendedor de passados - José Eduardo Agualusa
10. O Fazedor - Jorge Luís Borges
11. Terra Sonâmbula - Mia Couto
12. Barroco Tropical - José Eduardo Agualusa
13. Quem de nós - Mario Benedetti
14. O último voo do flamingo - Mia Couto
15. A carta de Pero Vaz de Caminha: o descobrimento do Brasil - Silvio Castro
16. Na berma de nenhuma estrada e outros contos - Mia Couto
17.O reino deste mundo - Alejo Carpentier
18. Como veias finas na terra - Paula Tavares
19. Baía dos Tigres - Pedro Rosa Mendes
20. O português que nos pariu - Angela Dutra de Menezes
21. Cem anos de solidão - Gabriel Garcia Marquez
22. Vermelho amargo - Bartolomeu Campos de Queirós
23. Meu tipo de garota - Buddhadeva Bose
24. Tradutor de Chuvas - Mia Couto
25. O livro das perguntas - Pablo Neruda
26. O fio das missangas - Mia Couto
27. Luka e o fogo da vida - Salman Rushdie
28. Pawana - J.M.G. Le Clézio
29. O africano - J.M.G. Le Clézio
30. O pescador de almas - Flamarion Silva
31. Um erro emocional - Cristovão Tezza
32. O amor, as mulheres e a vida - Mario Benedetti
33. A cidade e a infância - José Luandino Vieira
34. História do olho - Georges Bataille
35. Destino de bai- antologia de poesia inédita caboverdiana
36. O tigre de veludo- E. E. Cummings
37. Poesia Soviética - Seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho
38. A cicatriz do ar - Jorge Fallorca
39. Refrão da fome - J.M.G. Le Clézio
40. As avós - Doris Lessing
41. Vozes Anoitecidas - Mia Couto
42. O livro dos guerrilheiros - José Luandino Vieira
43. Trabalhar cansa - Cesare Pavese
44. No teu deserto - Miguel Sousa Tavares
45. Uma canção para Renata Maria - Ediney Santana
46. Sete sonetos e um quarto - Manuel Alegre
47. Trópico de Capricórnio - Henry Miller
48. Sinais do Mar - Ana Maria Machado
49. Carta a D. - Andre Gorz
50. E se o Obama fosse africano? E outras interinvenções - Mia Couto
51. De A a X - John Berger
52. Diz-me a verdade acerca do amor - W.H. Auden
53. Poemas malditos, gozosos e devotos - Hilda Hilst
54. Outro tempo - W.H. Auden
55. nem sempre a lápis - Jorge Fallorca
56. Elvis&Madona - Luiz Biajoni
57. Budapeste - Chico Buarque
58. José - Rubem Fonseca
59. Axilas e outras histórias indecorosas - Rubem Fonseca
60. Instruções para salvar o mundo - Rosa Montero
61. A chuva de Maria - Martha Galrão
62. Rimas da vida e da morte - Amós Oz
63. Aqui nos encontramos - John Berger
64. Pensatempos textos de opinião - Mia Couto
65. Os verbos auxiliares do coração - Péter Esterházy
66. Cartas a um jovem poeta - Rainer Maria Rilke
67. A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristovão Rilke - Rainer Maria Rilke
68. Adultérios - Woody Allen
69. Quem me dera ser onda - Manuel Rui
70. Satolep - Vítor Ramil
71. Homem Comum - Philip Roth
72. O animal agonizante - Philip Roth
73. Paisagem com dromedário - Carola Saavedra
74. Não te deixarei morrer, David Crockett - Miguel Sousa Tavares
75. Orelhas de Aluguel - Deonísio da Silva
76. Travessia de verão - Truman Capote
77. Avante, soldados: para trás - Deonísio da Silva
78. Antes das primeiras estórias - João Guimarães Rosa
79. O outro pé da sereia - Mia Couto
80. O cemitério de Praga - Umberto Eco
81. A mulher silenciosa - Deonísio da Siva
82. Livrai-me das tentações - Deonísio da Silva
83. A mesa dos inocentes - Deonísio da Silva
84. Hilda Furacão - Roberto Drummond
85. A estética do frio - Vitor Ramil
86. Poetas de França - Guilherme de Almeida
87. Tarde com anões 7 minicontistas - Carlos Barbosa, Elieser césar, Igor Rossoni, Lidiane Nunes, Mayrant Gallo, Rafael Rodrigues e Thiago Lins.
88. Pensageiro Frequente - Mia Couto.
89. A palavra ausente - Marcelo Moutinho
90. Uma mulher -Péter Esterházy
91. Cartas de amor - Fernando Pessoa
92. A última entrevista de José Saramago - José Rodrigues dos Santos
93. A morte de D.J. em Paris - Roberto Drummond
94. Do desejo - Hilda Hilst
95. Cenas indecorosas - Deonísio da Silva

Leituras a partir de 19 de Julho de 2010

1. La Hermandad de la uva - John Fante
2. Nem mesmo os passarinhos tristes - Mayrant Gallo
3. Um mau começo - Lemony Snicket
4. Recordações de andar exausto - Mayrant Gallo
5. Ladrões de cadáveres - Patrícia Melo
6. O mar que a noite esconde - Aramis Ribeiro Costa
7. Há prendisajens com o xão - Ondjaki
8. E se amanhã o medo - Ondjaki
9. O último leitor - Ricardo Piglia
10. Par e ímpar - Tatiana Druck
11. Paris França - Gertrude Stein
12. Quirelas e cintilações - Luiz Coronel
13. AvóDezanove e o segredo do soviético - Ondjaki
14. Luaanda - José Luandino Vieira
15. Poemas para Antonio - Ângela Vilma
16. Estranhamentos - Mônica Menezes
17. A vida é sonho - Calderón
18. A varanda do Frangipani - Mia Couto
19. Um copo de cólera - Raduan Nassar
20. Antes de nascer o mundo - Mia Couto
21.Lavoura Arcaica - Raduan Nassar
22- Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser - Eduardo White
23. Manual para amantes desesperados - Paula Tavares
24. Materiais para confecção de um espanador de tristezas - Ondjaki
25. Milagrário Pessoal - José Eduardo Agualusa
26. Felicidade e outros contos - Katherine Mansfield
27. Estórias abensonhadas - Mia Couto
28. Fábulas delicadas - Eliana Mara Chiossi
29. O Ulisses no Supermercado - José de Assis Freitas Filho
30. Cartas Exemplares - Gustave Flaubert
31. A Moça do pai - Vera Cardoni
32. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra - Mia Couto
33. Dentro de mim faz sul seguido de Acto Sanguíneo - Ondjaki
34. Bonequinha de Luxo - Truman Capote
35. 125 Poemas - Joaquim Pessoa.

Mundo bípede


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