
Quarta parte - Depois de anos convivendo com o senhor bípede, era para eu achar perfeitamente natural o fato dele não ter o mínimo senso de orientação. Perder-se, para ele, chega a ser divertido. Ele é assim: pega o trem certo e, no meio do trajeto em uma estação qualquer, embesta que está errado e simplesmente desce. E eu que desça correndo atrás. Sobe em um colina, aprecia a belíssima vista, aponta locais para irmos e, quando chega a hora de descer, pega a esquerda em vez da direita, faz tudo isso surdo. Eu falo é para lá, é para lá, mas ele não ouve. E se começo a ficar irritada, a chiar, como dizem na minha terra natal, ele diz com a maior cara dura que é um implicante por natureza e que a gente não vai se estressar por um detalhezinho desses, né? Tá, vamos tentar. Acaba que dá certo. Demorar para chegar na Brasileira foi interessante. Do Rossio, demos uma super volta pela Baixa, caímos no Arco da Rua Augusta, voltamos pela Rua dos Fanqueiros, avistamos o elevador de Santa Justa, cruzando a Rua de Santa Justa, e finalmente estávamos outra vez no Rossio, quase no ponto de partida. Ali, na Praça da Figueira, olhando a estátua do rei João I, o senhor bípede, humildemente, reconheceu que estava perdido e teve um insight raríssimo: vamos perguntar para alguém como se chega à Brasileira. Pergunta feita, caminhamos umas quadras e nada. Então, voltamos e, dessa vez, a pergunta foi dirigida a um policial bastante sorridente, que explicou tintim por tintim o caminho até o Chiado. E ele foi de uma precisão surpreendente. Chegamos na Brasileira rapidinho, compartilhamos contentes uma mesa (hábito inaceitável no Brasil) com um senhor português de idade muito avançada, fomos atendidos por uma brasileira, tomamos café, comemos folhados, observamos a decoração Art Nouveau. Tudo bacana, mas fora de série, do estilo isso não tem preço, foi ser testemunha da greve que ali ocorria. Reunidos na porta do estabelecimento, sendo fotografados e filmados, estavam meia dúzia de funcionários de quem? Da própria. Com bandeiras em punho, distribuiam o folheto amarelo que tenho aqui comigo e que não posso deixar de transcrever algumas partes.

Diz:
" Aos clientes da Brasileira do Chiado
Estamos em greve - Porquê?
Repressão psicológica, não cumprimento dos direito no C.C.T., intimidações, processos disciplinares a quem exige o cumprimento dos direitos.
ASSIM NÃO!
Isto afigura-se-nos como atitude a reprovar e denunciar publicamente."
Que espírito o desses funcionários! Invejável! Amei. No dia certo, na hora certa, no momento certo, eu estava ali.
Nos anos 70 uma bípede gaúcha reclamou para uma portuguesa que nada funcionava em Lisboa em razão de uma greve geral. A senhora liquidou o assunto respondendo: "Greve é um privilégio dos países desenvolvidos."
ResponderExcluirA bípede gaúcha não é quem eu estou pensando porque ela não seria capaz de fazer uma coisa dessas, seria?
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